Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
Modismo


Nunca tantas crianças leram tantas páginas em tão pouco tempo e com tanto entusiasmo. Tendo isso em vista, é possível afirmar que os livros Harry Potter têm grande potencial para virarem clássicos da literatura infanto-juvenil, deixando de ser somente uma série de livros que ficarão um tempo a mais na estante.
Todo o marketing feito em cima dos livros da série colaborou para que Harry Potter alcançasse o sucesso que tem hoje e se tornasse best-seller, mas não podemos esquecer do trabalho maior, no começo de tudo, que foi o mais difícil, quando eram apenas as indicações de amigos e professores que incentivavam e motivavam a leitura da obra, sem nenhum apelo das mídias atuando.
Deve-se levar em conta também a importante observação que fazem os psicanalistas Diana e Mário Corso – em seu livro Fadas no Divã: a psicanálise nas histórias infantis, de 2006 – a respeito da afirmação de muitos que Harry Potter é apenas modismo e, que todos lêem, porque todos estão lendo: “Não se pode esquecer que não houve uma campanha publicitária prévia que tivesse alçado esses livros à condição de objetos de consumo desejáveis. Os responsáveis iniciais pela escolha e difusão foram os leitores. Depois de constatado o imenso impacto de público, o mercado acordou e absorveu o fenômeno, então vieram os brinquedos, os filmes, os produtos com a marca da série.” (p. 254)
Harry Potter é uma obra completa, que nasceu da vontade de uma sábia escritora de incentivar e encantar quem gosta de ler com uma história que mistura fantasia e realidade; porém, a autora não faz com que o leitor rompa com a sua realidade e seja conduzido para o reino da fantasia, mas faz a história compartilhar com ele uma visão fantasiada da vida, típica da infância, proporcionando um caminho seguro para transitar dela para o mundo jovem.
Com base em todos esses aspectos, além de dizer o óbvio – os livros são bem escritos e a autora não considera as crianças como menos exigentes para com a literatura – pode-se afirmar que os livros exploram temas como amizade, escolha, coragem, ambição, preconceito, crescimento, sexualidade, responsabilidade, entre outros que acontecem num mundo mágico com suas próprias histórias, habitantes e cultura.
E ao contrário do que considera o crítico Harold Bloom – que os livros utilizam uma grande quantidade de clichês e que, portanto, não seriam leitura de qualidade – o enredo da história é rico em relações com a realidade, com personagens complexas, viradas surpreendentes e todo um universo de fantasias criado com exclusividade para a série. É importante considerar que a criação de dimensões mágicas é comum na literatura, mas Harry Potter faz a diferença, pois outros autores já fizeram isso, e nem sempre conseguiram alcançar os mesmos resultados.


  • Foto de perfil genérico Cristiano Rosa

    Em 05/01/2008


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