Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
1 - Contrato assinado

O sapato branco tocou com leveza o piso do salão.
Para todo lado que se olhasse, o luxo estava presente: ornamentação impecável, um salão magnífico e convidados trajando suas roupas mais finas e reluzentes.
Mas Astoria Greengrass não estava feliz.
Não lhe importavam o luxo e a riqueza que a aguardavam. Não se impressionava com os convidados elegantes e mal se dava conta dos flashes que a colocariam em destaque nas colunas sociais do dia seguinte.
A única coisa que lhe passava pela mente é que a cada passo dado por aqueles sapatos brancos naquele salão soberbo, aproximava-se de um homem que não queria.
Ao fixar o olhar adiante, pôde vê-lo esplendidamente colocado ao lado dos pais e de sua mãe. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, e não tinha nada a ver com emoção ou desejo.
Era medo: desconhecia o que aquele homem esperava dela. Pensando bem, na verdade sabia exatamente o que ele esperava: lealdade, herdeiros e sexo. Seu medo, no entanto, era o de frustrar suas expectativas, pois sabia que não tinha mais nada a oferecer a ele.
Queria estar em qualquer lugar do mundo, menos ali. Apesar de sua estonteante beleza, realçada pela maquiagem fina e cabelos perfeitamente arrumados; apesar de belíssima no vestido incrivelmente branco, estandarte de sua pureza ainda intacta, que em poucas horas seria entregue a alguém que jamais a tocara, mas que em breve teria todo o direito de, em meio a carícias que ela não desejava, com ela se satisfazer, após despi-la do belo vestido e tirar de sua cabeça a tiara herdada da futura sogra, tiara cujo valor excedia todas as posses de sua família em muitos milhares de galeões.
Milhares de galeões. Este era o preço que receberia por abdicar de seus sonhos. Fechar as portas de sua vida para um futuro em que seria feliz com seu escolhido não era seu objetivo, não importava quantas montanhas de ouro lhe fossem oferecidas. Mas Astoria era uma filha dócil e fraca demais para contrariar seus pais, e eles a cada dia a lembravam da boa sorte que tivera por Draco Malfoy pousar os olhos sobre ela. O quanto era privilegiada por merecer seu cortejo, quando tantas outras moças de menos renome, mas de melhor situação financeira, arrulhavam ao seu redor. Aceite- o, ele pode vir a ser um bom marido e bom pai para seus filhos. Aceite-o, está difícil encontrar um bom companheiro. Aceite-o, ele é um bom partido, você não deve desperdiçar a sua sorte. Case-se com ele, estamos falidos, trate de garantir o seu futuro, não nos dê o desgosto de se submeter a uma vida vulgar. Torne-se sua esposa, com vocês dois casados, terei todas as garantias de que preciso para salvar os meus negócios.
Negociada. Como uma mercadoria.
Caminhou, passo a passo, para o seu destino que não teve a chance de tentar mudar, sem saber que suas angústias encontravam eco no homem que a esperava.

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Ele a viu adentrar o salão, e sua esplêndida beleza era o suficiente para distraí-lo dos decotes que até então vinha cobiçando. Perfeito, pensou ele, sem emoção. Porque, se tudo aquilo era necessário, que ela se esforçasse para fazer bem feito.
Necessário. Nada mais do que isso. Era como uma mão lavando a outra. Ele a livraria da iminente miséria, e ela lhe daria uma família e o status de homem respeitável perante a sociedade. Ela seria a bonequinha de luxo, a dar credibilidade à sua estampa de homem de bem. Bom para os negócios, pensou. Um homem casado, não um moleque fanfarrão. Você está no lucro, disse ele a ela, ao examinar o anel de noivado em sua mão pálida, já distantes dos convidados da cerimônia impessoal realizada noites antes, meses atrás. O que lhe peço é muito pouco, completou, falando a um par de olhos que encarava o chão. Muito pouco diante do que você vai ganhar. E o que terá que me dar em troca, creio que seja bom para ambos, concluiu, numa mescla de calculismo e lascívia. Ante o rubor da moça, que em silêncio engoliu o insulto, repetiu: você está no lucro. E selou o compromisso com um beijo frio.
Lucros e prejuízos. Era disso que se tratava, então.
Sua aparente frieza, entretanto, contrastava com alguns sentimentos ocultos. Em seu interior residia a insegurança com relação a seu futuro e daquela jovem cujo pai estava prestes a lhe confiar. Seriam felizes? Nada poderia garantir. Seu casamento foi uma decisão repentina, provocada pela necessidade crescente de se impor como homem, como o herdeiro da família Malfoy. Não se tratava de provar a própria virilidade - mulheres para isso não lhe faltavam. Precisava sim mostrar que era um homem feito, não um garoto que sempre teria as asas do pai e da mãe para protegê-lo. Formar uma família. Mostrar que cresceu.
Entre a escolha da noiva e levá-la ao altar, não se passaram seis meses. Investigou as famílias bruxas mais renomadas, identificou as moças solteiras, analisou o status de sangue - isto era fundamental-e por fim escolheu as que mais lhe atraíam. Tratou de conhecê-las de modo deliberadamente informal, para saber qual delas atenderia melhor a seus propósitos. Finalmente chegou a Astoria-moça de família nobre, mas decadente. Porém, simpatizou com ela devido a seu jeito singelo. Parecia o tipo de mulher que não lhe daria trabalho para transformar em uma esposa submissa. A princípio, a jovem lhe pareceu fugidia-e isso o atraiu. Com a família em franca decadência e dispensando um bom partido? Honesta. Isto é bom. Tratou de cercá-la da forma mais infalível: oferecendo vantagens e fazendo promessas de prosperidade para os pais dela.
O tiro foi certeiro. Os pais venderam a filha sem pestanejar, sem questionar se aquele homem de vida pregressa tão obscura a faria feliz.
Agora, à beira do altar, questionava se tinha sido uma boa ideia arranjar este casamento assim, com a praticidade de um negócio. E se ela se revelasse um fardo, tolhendo-lhe a liberdade e infernizando-o com cobranças? E se não fosse fiel e terminasse por cobri-lo de vergonha? E, este era seu maior temor, se não fosse uma boa companheira e o deixasse viver em eterna solidão?Eram questões que o atormentavam. Mas não havia mais tempo para pensar. Tomara sua decisão e a sorte estava lançada.
Pouco lhe importava se num futuro breve se veria encantado, sinceramente apaixonado, por outra moça qualquer. Sabia ― na realidade, todos sabiam ― que a lealdade que tanto exigia não era a mesma que estava disposto a oferecer.
Adiantou-se para receber a noiva. Sorriu para o futuro sogro, ambos com olhar de quem fecha um acordo duplamente satisfatório. Fitou então sua futura esposa, sorriu e beijou-lhe a mão, em movimentos estudados dia após dia, para parecerem perfeitamente naturais.

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Ela sorriu, colocando nos lábios o máximo de sinceridade que pôde - embora soubesse não possuir nenhuma - enquanto encarava aqueles olhos cinzentos e sem brilho algum. Mais uma vez, o medo a acossou. Mas agora era tarde. Tarde demais para ambos.

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Seguiram juntos em direção ao altar, sorrindo. Ela, parecendo tímida. Ele, altivo. Ambos, sustentando em comum somente a predisposição para fazer dar certo, tanto quanto fosse possível, um casamento sem amor.
Comentários
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  • 04/04/2012 15:23:52 Imagem de usuário genérica Padma Ravenclaw:

    Rsrsrs!Olha,não quero dizer que eu penso isso!É um "eu masculino" um tanto machista que está falando ali.Não tem aquele ditado que diz que a mulher enganou até o diabo?rsrsrs!
    O significado de sortilégio nessa frase é o de trama,maquinação. É o mesmo que dizer que nós,mulheres,somos engenhosas.
    Bjs e obrigada por ler e comentar! =*

  • 16/02/2012 16:32:25 Imagem de usuário genérica Padma Ravenclaw:

    Vai continuar sim!O próximo capítulo deverá ser publicado neste final de semana.Bjs e obrigada por ler!

  • 13/02/2012 17:55:29 Imagem de usuário genérica Padma Ravenclaw:

    Muito obrigada! :)

  • 13/02/2012 17:55:03 Imagem de usuário genérica Padma Ravenclaw:

    Atendendo a pedidos, estou escrevendo a continuação da fic. Espero que goste! :)

  • 30/01/2012 16:19:23 Imagem de usuário genérica cristiane_taz:

    Muito bem escrito e delicado. Vc foi caprichosa. Parabéns.

  • 25/10/2011 11:46:01 Imagem de usuário genérica Kh. Bruxa:

    Gostei mto.
    Vai continuar a escrever? Espero que sim!

    Até mais..
    ˆˆ

  • 15/10/2011 22:45:01 Imagem de usuário genérica Padma Ravenclaw:

    Que bom que gostou! *-* Obrigada por ter lido!

  • 18/09/2011 09:44:51 Imagem de usuário genérica Emily C. Potter:

    Mto legal e criativa
    Eu adorei *-*


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