Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
11 - Estocolmo

As sacolas caíram no chão e uma fração de segundo depois Astoria buscava amparo na parede mais próxima, arquejante. Sua mente parecia ter sido obliterada. Aos poucos o entendimento foi se fazendo em seu cérebro: Draco alvejado. Ferido. Talvez... Morto?

Alguém colocou um copo de água em sua mão, mas ela não conseguia segurá-lo, pois tremia e sua mão parecia não ter mais sensibilidade. Passou-se algum tempo até que ela percebesse que chorava e soluçava, dizendo penosamente: "Ah não, Draco! Draco!".

Ouviu vagamente uma voz conhecida dizendo algo que ela não conseguia entender. Era Blaise, perdido entre duas mulheres nervosas e chorosas, sem saber como consolá-las. Só então Astoria lembrou-se da sogra e cambaleou até ela. As suas se abraçaram e choraram copiosamente, tentando se consolar mutuamente.

Passados vários minutos, Astoria pediu o copo d'água e tomou vários goles, forçando-se a se acalmar: Narcisa estava arrasada e caberia a ela se inteirar dos fatos e tomar providências, fossem quais fossem.

-Onde ele está? ― indagou. ― Ele não está... ?

-Não, por Merlin, não! ― exclamou Blaise. ― Apesar de o tiro ter atingido uma parte preocupante, perto do peito, nenhum órgão foi atingido. Ele precisou ser operado, mas a cirurgia foi bem sucedida.

Aquelas palavras fizeram Narcisa despertar da melancolia.

-Operado? Você não quer dizer que foi atendido por...

-Trouxas. ― completou Zabini. Havia um tom de desagrado em sua voz, deixando claro que a palavra o enojava. ―Mas não se preocupe, Narcisa. Por sorte Draco e eu temos o mesmo tipo de sangue e eu doei a ele o necessário, além de ter entrado em contato com o Ministério da Magia, para que eles colocassem os funcionários responsáveis cuidando para que Draco tivesse seu sangue puro respeitado. Você sabe, há uma equipe encarregada do contato entre bruxos e trouxas. Como o ferimento foi causado por uma arma trouxa, tiveram que tratá-lo do modo trouxa, sabem como é, cortando e costurando.

-Mas ele ficou bem? Onde afinal ele está?

-No hospital St. Mary. Está na UTI, que é onde ficam os casos mais graves, mas é porque foi operado. ― Blaise explicou, ao notar o sobressalto das duas mulheres. ― Retiraram o projetil e estão observando a recuperação dele.

Astoria sinalizou balançando a cabeça levemente em sinal positivo.

-Como foi que tudo aconteceu? ―perguntou Astoria.

-Estávamos na Londres trouxa. Tínhamos uma coisa da empresa para resolver e fomos lá. Estávamos procurando um local deserto para podermos desaparatar, então dois trouxas tentaram nos assaltar. Em vez de ficar quieto, Draco tentou pegar a varinha para imobilizá-los. Um deles fugiu, mas o outro estava com uma daquelas armas que eles usam para matar. Atirou nele e fugiu. Pegou do lado esquerdo, na altura do peito.

Astoria ofegou e levou as mãos à boca, imaginando o susto e a dor que o marido teve que enfrentar. Narcisa fungou. Estava mais calma, mas ainda chorava bastante.

-Vai ficar tudo bem. ― Tranquilizou-as Blaise. ― Draco é um cara forte, vai se recuperar logo.

-Obrigada pelo apoio, filho. ― murmurou Narcisa. Blaise a abraçou, consolando-a. Astoria retirou-se sem dizer nada. Não quis ser notada.

Astoria entrou em seu quarto. Sentou-se na cama e acariciou o travesseiro do marido. Então, desabou sobre ele, aos prantos. O cheiro de Draco ainda estava ali, intensificando seu temor de que nunca voltasse a vê-lo om vida.

-Astoria? ― chamou uma voz masculina à porta do quarto.

Ela levantou-se, secando os olhos apressadamente. "Blaise?"

Blaise Zabini entrou cautelosamente no quarto.

-Desculpe-me por incomodá-la. Sei que é um momento difícil, porém preciso pegar uns papéis que Draco deixou no escritório. Narcisa me autorizou a subir.

-Tudo bem. Fique à vontade. ― Astoria respondeu, sem emoção.

E no instante seguinte, chorou desesperadamente.

Blaise sentou-se ao lado dela na cama e passou a mão por sobre seus ombros, consolando-a.

-Ele vai ficar bem, Astoria. A situação foi preocupante, mas ele vai se salvar. Draco é forte. Você não vai se livrar dele facilmente assim. ―concluiu ele, tentando animá-la.

-Um tiro é uma coisa perigosa demais. ―Astoria observou, lastimosa. ―Quantas pessoas morrem assim todos os dias?

Blaise a apertou com mais força e ela pousou a cabeça sobre seu ombro.

-Os trouxa são idiotas para várias coisas, mas pelo menos sabem desfazer as bobagens que fazem.

Astoria fungou.

-Não vou me perdoar se algo pior acontecer. Draco e eu estávamos brigados. Ontem à noite tivemos uma conversa, mas não conseguimos nos entender. Se eu ao menos não tivesse sido tão dura...

Ela suspirou antes de continuar.

-A última coisa que ele me disse foi que precisávamos pensar se queríamos continuar casados. Imagine só se acontecer o pior e ele morrer achando que eu não o queria mais!

Blaise acariciou os cabelos de Astoria cuidadosamente.

-Ele não vai morrer, Astoria. Tenho certeza de que logo ele estará aqui de volta.

Astoria apertou os lábios e mais lágrimas escorreram por seu rosto.

-Eu o amo tanto! Draco... Meu Draco! Ele não pode morrer. Se ele morrer eu morrerei junto com ele.

Blaise abraçou Astoria, consolando-a. Não sabia mais o que dizer, então se limitava a repetir que tudo iria ficar bem.

Um estranho pensamento começou a se formar na mente de Blaise enquanto abraçava Astoria. "Céus, como ela é atraente! Como pude deixa-la escapar?", pensava enquanto sentia os seios dela encostando em seu peito levemente. Sabia que era no mínimo incorreto pensar nos atributos dela num momento daqueles, mas estava sendo traído por seus instintos. "Ela é linda, gostosa, e tem um cheiro... Ah, que deliciosa! Ela é maravilhosa. Impossível não desejar esta mulher."

Blaise sentia-se especialmente tentado pelo fato de que Draco o tinha desafiado a lhe roubar a mulher, como se ele não tivesse capacidade para isso. A oportunidade era excelente: Astoria estava fragilizada e vulnerável. Uma presa perfeita.

Mas Blaise não seria tão canalha a ponto de se aproveitar da mulher do amigo em uma situação daquelas. Draco fora arrogante ao desafiá-lo, mas isso não justificaria uma atitude tão mau caráter.

Ao mesmo tempo em que tal entendimento se formava na cabeça de Blaise, Astoria se dava conta do quão inadequada era aquela situação.

Ela estivera na companhia de Blaise, desesperada demais para pensar em qualquer coisa que não fosse a vida de Draco. Porém, já um pouco mais calma, foi atingida pela percepção de que estava abraçada a Blaise e por um segundo fugaz sentiu a firmeza dos braços dele, seu cheiro másculo e uma pontada de desejo se acendeu.

Imediatamente Astoria bloqueou aquele pensamento. Estava tudo errado! Ela estava no quarto de Draco, na cama dele, abraçada a um homem do qual sabia que o marido nutria profundos ciúmes. Completamente inadequado.

Constrangida, saiu daquele abraço tentando não parecer grosseira. Sem olhar para Blaise, disse:

-É melhor eu me apressar. Tenho que ir até o hospital para saber como ele está.

Blaise a observou com ar de desapontamento e comentou:

-Seria melhor você ir amanhã, Astoria. Ele não vai poder receber visitas e a equipe responsável pela cirurgia não vai estar lá. Se houver algo errado, entrarão em contato.

Astoria lançou-lhe uma expressão emburrada:

-Vou para lá sim. Imagine só se vou ficar tranquila em casa enquanto meu marido corre o risco de morrer!

-Ele não vai morrer, Astoria! ―Exclamou Blaise de modo enfático. ― Ouça. Fique aqui e faça companhia à sua sogra. Amanhã você vai ao hospital e certamente Draco estará bem.

Ele foi até a porta e de lá disse:

-Se me dá licença, vou pegar os papeis.

Astoria assentiu e ele saiu, fechando a porta atrás de si.

Meia hora depois, Astoria aparatava na porta do hospital.

Astoria dirigiu-se à recepção, onde uma funcionária com cara de poucos amigos fazia anotações. Pigarreou, mas a mulher não lhe deu atenção. Ela então disse timidamente: "Boa noite?" Novamente não obteve resposta. "Boa noite!", exclamou, elevando um pouco a voz.

A recepcionista bufou e revirou os olhos, pousando zangada as mãos sobre o balcão. Encarou Astoria com visível desagrado e disse: "Eu não sou surda. O que é?".

Astoria, sentindo-se intimidada, murmurou: "Só queria saber notícias do meu marido".

A recepcionista digitou rapidamente em um computador.

-Nome.

-Draco Malfoy.

A mulher tornou a digitar.

-Draco Malfoy- grunhiu. ― Tiro próximo ao peito. Cirurgia para extração do projetil. UTI.

Astoria aguardou por mais informações, mas a mulher não disse mais nada.

-E então? ― Indagou Astoria, impaciente.

-Então o quê? Já lhe disse!

-Quero saber como ele está agora! Está passando bem? Já acordou?

A mulher empertigou-se:

-Escute aqui, minha senhora, isto é tudo que tenho para lhe informar. Se quer saber mais coisas, fique aí e espere até amanhecer, quando haverá troca de plantão e as informações serão atualizadas. Não me faça perder mais tempo.

Astoria, já sensibilizada pelos acontecimentos, ficou ainda mais abalada. Olhou para a mulher com lágrimas nos olhos e disse, com a voz tomada pela dor:

-Você não ama ninguém, não é?

-Como é?

-Você não tem marido, filhos, mãe, amigos... Não tem ninguém importante em sua vida, para você imaginar como é estar perto de perder um ente querido. Só isso explica essa sua crueldade. Eu só quero saber do meu marido! Só isso! Custa alguma coisa você ser mais competente?

A mulher se ofendeu com aquelas palavras e fez um gesto, chamando o segurança. O homem se aproximou com cara de tédio, aparentemente acostumado às queixas da colega. "Por favor, senhora, queira me acompanhar", disse, encarando Astoria.

-Mas eu só quero saber notícias do meu marido! ― Suplicou Astoria. ― Será que é tão difícil assim compreender?

O homem a observou com um olhar condescendente por alguns instantes. Depois disse:

-Senhora, as informações são atualizadas de acordo com as mudanças significativas no quadro dos pacientes ou quando há troca de plantão, o que ocorre às sete horas da manhã. Creio que no momento realmente não haja nada novo, e também não são permitidas visitas a essa hora. O ideal seria que a senhora fosse para casa e retornasse logo mais.

Astoria, contrariada, virou o rosto para o outro lado, respirando fundo e apertando os lábios.

-Sei que é difícil descansar quando há um ente querido em situação de risco, mas acho que é o melhor que a senhora pode fazer.

Astoria meneou a cabeça em sinal positivo. Vencida, vagou até uma cantina, onde pediu a um funcionário sonolento um copo enorme de café e sentou-se em um banco, disposta a esperar pelas horas que se fizessem necessárias até pôr os olhos em Draco.

-Astoria. Astoria!

Astoria abriu os olhos e levou alguns segundos para compreender que tinha pegado no sono, sentada no banco da cantina. O copo de café estava caído a seus pés. Agora havia várias pessoas ao seu redor, e Blaise estava à sua frente, tentando despertá-la.

-O que faz aqui? ― Indagou ela, com a voz rouca ocasionada pelo cochilo.

-Chamei você pela manhã, mas ninguém atendeu o espelho, então consegui falar com Narcisa e ela avisou que você estava aqui. Conseguiu alguma coisa?

-Não. Só às sete horas é que talvez alguém apareça para falar comigo.

-Eu não avisei? Você devia ter ficado em casa descansando. Mas agora já são sete e meia. Vamos até o balcão. Espero que as notícias sejam boas.

Sem se importar com o estado em que se encontrava, ela disparou para o balcão de informações, onde uma funcionária diferente e visivelmente mais simpática e solícita estava atendendo. Aguardou com impaciência a fila de quatro pessoas ir diminuindo, e quando chegou sua vez, disse aflita:

-Draco Malfoy, foi operado, tem alguma notícia?

A jovem recepcionista lhe deu um breve sorriso, digitou rapidamente no computador e disse:

-Quadro estável. Saindo da UTI e indo para o quarto nesta manhã. Nesta tarde já poderá receber visitas.

Astoria abriu um sorriso e respirou profundamente, aliviada. A recepcionista prosseguiu:

-A senhora pode conversar com o plantão da enfermagem para saber maiores detalhes e voltar à uma hora da tarde para a visita.

Astoria assentiu e fez o que ela recomendou. Não havia nada de diferente do que a moça já havia lhe falado, porém, para seu alívio, as informações eram de que Draco estava reagindo muito bem. Como não havia muito que fazer até a hora da visita, ela resolveu voltar para casa, tomar um banho e descansar.

Algumas horas mais tarde, Astoria estava de volta. Foi até o quarto, de onde saía uma enfermeira.

-Boa tarde! Como ele está?

A moça deu um sorriso sem graça e respondeu:

-Mais cedo ele me chamou de trouxa, reclamou de todos os alimentos que recebeu e foi um custo aplicar-lhe os medicamentos. Então,suponho que esteja bem.

Astoria deu um sorriso sem graça.

-Posso entrar?

-Claro! Pode entrar, mas ele está dormindo. Os medicamentos causam sonolência.

Astoria sorriu e entrou lentamente no quarto.

Draco estava profundamente adormecido e como estava coberto, o curativo não podia ser visto.

Astoria aproximou-se da cama e um soluço emocionado escapou de sua boca. Ver o rosto dele tão tranquilo, ouvir sua respiração, ver seu peito subindo e descendo... A sensação de alívio era inexplicável. Chorou baixinho, agradecida por seu marido estar vivo, e tocou seu rosto para que pudesse sentir o calor do corpo daquele a quem ela tanto amava. Draco se mexeu um pouco, mas não acordou.

Ela arrastou uma poltrona até um dos lados da cama e ficou sentada ali, esperando ansiosamente que o marido acordasse, porém estava tão exausta que acabou adormecendo.

Astoria acordou ao sentir uma mão acariciando levemente seus cabelos e dizendo: "Mãe?".

Levantou-se da poltrona rapidamente, sorrindo, e viu a surpresa no rosto de Draco ao perceber que era ela, e não Narcisa.

-Astoria? Você?

Ela arquejou e murmurou: "Ah, Draco!". Fez menção de se atirar sobre ele, mas ele arregalou os olhos e exclamou: "Cuidado!".

Ela retesou ciente de que quase o machucou, e o encarou com um olhar que pedia desculpas profusamente. Draco sorriu serenamente e disse: "Venha", esticando o braço do lado oposto ao ferimento para abraçá-la. Astoria aproximou-se e delicadamente o abraçou. Ele beijou sua cabeça e ela sentiu uma lágrima escorrendo por seu rosto. Levantou-se e olhou para ele, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Ele viu as lágrimas em seu rosto e segurou sua mão.

-Está tudo bem, querida. Não chore. Estou ótimo.

Astoria apertou a mão dele.

-Você me deu um susto enorme, Draco. Por favor, prometa que nunca mais vai fazer isso. Se um trouxa ou quem quer que seja tentar assaltá-lo, prometa-me, você vai entregar tudo!

Draco sorriu, condescendente.

-Não se preocupe, querida. Senti tanta dor que não quero passar por isso de novo nunca.

Astoria sorriu e lhe acariciou o rosto. Aproximou lentamente seu rosto do de Draco e beijou-o delicadamente. Draco, desajeitado, correspondeu ao beijo da melhor forma que pôde, mas era possível notar sua paixão e o quanto também sentira falta da esposa. Astoria parecia não querer desgrudar os lábios dos de Draco. "Eu te amo, meu amor, te amo!" Murmurou, sem se separar dele. "Te amo e não quero que você se machuque nunca mais".

Depois de vários beijos, Draco pôs a mão no rosto dela, carinhoso.

-Não esperava ver você aqui, gatinha. Estou surpreso.

Astoria murmurou: "Bobo.".

- Na verdade, estou emocionado. Depois de tudo o que temos passado, você vem para ficar do meu lado.

Ela sorriu, acariciando-lhe o rosto.

-Na alegria e na tristeza. Lembra?

Ele sorriu de volta e acariciando a mão dela, disse:

-Sabe. Quando eu estava ferido, vindo para cá para ser operado, só conseguia pensar em você. Só pensava que não podia morrer de jeito nenhum, senão, quem cuidaria da minha menina?

Ela sorriu e apertou de leve o nariz dele. Depois passou um dedo pelo rosto dele, marcando seus traços. Não disse nada, mas seu olhar mostrava o quanto estava emocionada. Inclinou-se novamente sobre ele e lhe deu mais um beijo apaixonado.

A porta do quarto se abriu. Narcisa entrou, e ao ver Draco, exclamou: Ah, meu filhinho!"E quase se atirou em cima dele, como fizera Astoria. Advertida pelo casal, controlou o ímpeto e beijou e acariciou o filho. Instantes depois, estava à procura da enfermagem, reclamando e exigindo melhor tratamento, tal qual fizera o filho.

Depois de algum tempo, Blaise apareceu.

-E aí, cara! Tudo bem? - Cumprimentou, feliz em ver o amigo. Astoria aproveitou para ir até a antessala, onde ligou uma TV e começou a arrumar alguns cartões e flores que Draco tinha acabado de receber.

-Estou bem. ― Ele respondeu. ― Obrigado por ter me ajudado. Estaria ferrado se você não estivesse lá.

-Pois é. Mas tudo está bem quando termina bem. Logo você estará pronto para outra.

Draco riu.

-Não diga isso. Não quero passar por uma coisa dessas outra vez.

Os dois conversaram por vários instantes sobre negócios. Então Blaise notou Draco olhando para Astoria e comentou:

-Ela ficou desesperada ao receber a notícia. Estava horrorizada com a ideia de que você pudesse morrer. Eu tentei consolá-la, mas nada que eu dissesse conseguia tranquiliza-la.

Draco estreitou os olhos.

-E por que você foi quem teve de consolar a minha esposa?

-Porque era eu quem estava por perto quando você resolveu bancar o bruxão pra cima de dois trouxas armados, e coube a mim informar à sua família da merda em que você se meteu. ― Ele ergueu as sobrancelhas duas vezes, num gesto característico de Draco. ― De nada. ― Completou, debochado.

Draco, aliviado, voltou a olhar para a esposa.

-Que diabos ela está fazendo?

Blaise olhou com mais atenção.

-Está assistindo àquela coisa de trouxas. Como se chama? Tevelisão. ― Completou um tanto inseguro.

Draco ficou incomodado em ver a esposa se entrosando com coisas trouxas.

-Astoria. -Chamou. -Astoria!

Ela parou de olhar para a TV. "Sim?".

-O que está fazendo?

-Arrumando as coisas que você recebeu. Quer ver agora?

-Não, querida. Depois verei com calma.

Ela sorriu e voltou a prestar atenção à TV. Uma enfermeira chegou com um pote de gelatina e Draco torceu o nariz, murmurando: "Esse pote de sabão outra vez".

Astoria se aproximou para ajuda-lo a comer, mas ele disse que conseguiria sozinho. Ela voltou para a antessala e Draco deu uma colherada na gelatina. Murmurou:

-Ao menos para uma coisa levar esse tiro serviu..

-Ah é? - Indagou Blaise, curioso. ―Para que?

-Para fazermos as pazes. Estávamos brigados há vários dias, mas pelo visto, ela resolveu reconsiderar.

Blaise deu um sorriso completamente safado.

-Então, meu caro, acho bom você comer todas as porcarias que lhe servirem.

-Por que?

-Você precisa estar bem nutrido, pois se estavam brigados e depois do tiro ela ficou com medo de perdê-lo, quando você se recuperar, terá o melhor sexo de sua vida. Sexo de reconciliação mais sexo de alívio por não perder o marido... Cara, você é um homem de sorte! ― Blaise comentou, divertido, e os dois caíram na risada.

Narcisa retornou ao quarto, reclamando do hospital onde seu filho estava sendo tratado como um nababo. O médico apareceu para avaliar Draco e informou que ele poderia voltar para casa no dia seguinte. Então Narcisa e Astoria tiveram uma breve discussão para decidirem qual das duas faria companhia a Draco durante a noite, e Astoria conseguiu convencer a sogra de que cabia a ela, como companheira, ficar com o marido, até porque era mais jovem e aguentaria melhor a noite fora de casa. Assim, Narcisa despediu-se de Astoria e do filho e foi para casa, acompanhada por Blaise. Astoria passou a noite velando o sono de Draco, feliz por vê-lo e confirmar que, apesar do ferimento, ele estava bem.

DIAS DEPOIS

Draco estava quase totalmente recuperado da cirurgia. Ainda eram necessários alguns cuidados com o ferimento, mas já estava de volta à sua rotina, trabalhando em casa em vez de ir ao escritório, um luxo ao qual ele podia se dar, uma vez que com o a fortuna que tinha, nem mesmo precisaria trabalhar se não quisesse.

Certa tarde resolveu descansar. Avisou a Zabini que se ausentaria e foi dormir.

Astoria tinha estado em sua ourivesaria durante algum tempo. No meio da tarde, voltou para casa e foi direto ao escritório. Ao ver que o marido não estava, foi ao quarto e o viu dormir. Achou estranho, então perguntou a Narcisa se ele estivera se sentindo mal. Como a sogra avisou que ele estava bem, voltou à ourivesaria, trabalhando um pouco mais para tentar se distrair.

Estava absorta em seu trabalho quando, ao virar-se para mexer em um armário, deu de cara com Draco observando-a da porta. Soltou um grito assustado e bronqueou:

-Que droga de mania essa sua, de se esgueirar como um rato! Deu-me um susto!

Draco sorriu.

-Desculpe- me. Não tive a intenção. É que você estava tão linda, concentrada no trabalho, que eu mão quis interromper.

Astoria não pôde evitar um sorriso discreto.

-Eu mexo com algumas coisas perigosas aqui, sabe? Imagine se numa dessas suas aparições repentinas eu jogo para o alto um frasco de ácido muriático?

-Tenho certeza de que não acontecerá uma coisa dessas, sendo você tão responsável e cuidadosa.

-Oh, que galante, senhor Malfoy. ― Ela respondeu, mas estava sorrindo. ― Não tente me dobrar com elogios.

-De modo algum, minha querida. Em todo caso, prometo não fazer isso de novo. Da próxima vez subirei as escadas sapateando.

Astoria deu uma gargalhada, balançando a cabeça em sinal negativo, divertida. Enquanto isso, Draco observou o local.

-Quantos anos você tinha quando começou a mexer com isso? Com ouro, quero dizer. Você era bem novinha, não é? Afinal, quando nos casamos você já sabia produzir joias.

-Comecei aos dez anos. ― Astoria respondeu. ― Quando fui para Hogwarts já sabia muita coisa. Eu estudei enquanto estava lá, também. Ia lendo as coisas e punha em prática quando chegava em casa depois das férias. Meu tio era ourives e me ensinavam. Fui meio precoce. ― completou.

-Muito bom. ― Draco afirmou, com um tom de aprovação, parecendo sentir orgulho da esposa.

-E a que devo a honra de sua visita? ― Ela indagou, começando a arrumar seus utensílios.

Draco sentou-se preguiçosamente em um sofá, na verdade um divã, usado para receber as amigas que lhe faziam encomendas de joias.

-Mamãe disse que você esteve me procurando. Vim saber o que você queria.

Astoria corou.

-Ah. É isso. ―Respondeu, enquanto guardava os últimos objetos de trabalho, limpava a bancada e lavava as mãos.

Draco riu.

-Por que está corando? Ah, não me diga que após tanto tempo de casamento, eu ainda a deixo constrangida?

-Nem sempre, não é? ― Ela disse, aparentando nervosismo. Depois completou:

-O ferimento. Como está?

-Quase sarado. Incomoda só um pouco, mas não dói tanto. Por que? O que tem isso a ver com a conversa.

-É que... Eu fui procurá-lo porque queria... ―Ela disse reticente, esfregando as mãos. Draco ergueu as sobrancelhas. Ela então completou: -Quero fazer amor com você.

Draco a encarou com uma expressão absolutamente surpresa.

-Estamos há meses sem transar e agora, do nada, você quer? A quem devo este maravilhoso milagre? Não que eu esteja reclamando nem nada, mas francamente, estou espantado.

Astoria engoliu em seco e explicou:

-É que quando eu o vi naquela cama, ferido, me dei conta de que quase o tinha perdido. Então percebi que não quero mais deixar de viver nenhum momento junto com você.

A expressão de Draco ao ouvi-la era insondável.

-Então, você me viu sofrendo e resolveu voltar para mim por inteiro?

-É, podemos resumir assim.

-Não preciso de sua piedade, Astoria. ― ele contestou secamente.

-Não é piedade! ― ela rebateu, ansiosa. ― É só que vê-lo naquele estado me sensibilizou e me fez ver o quanto estou perdendo me afastando de você.

-E achou que era uma boa ideia me procurar e simplesmente se atirar em cima de mim.

Astoria abriu a boca para começar a responder mas ele a cortou.

-Não sou um pedaço de carne, sabe? Tenho sentimentos! Acha que é só chegar e dizer que quer transar? Não é assim não!

Ela baixou os olhos, sentindo-se envergonhada com aquela reação inesperada. Então ele prosseguiu:

-Não é assim não. ― repetiu. E com a voz mais suave, completou:

-Tem que fazer um carinho, sabe? Uns beijinhos, uns amassos. Quem sabe até dizer que eu sou bonitinho...

Ele sorriu, e Astoria percebeu que estava brincando.

Então, ela foi até o divã e sentou-se cuidadosamente no colo do marido. Passou os braços pelo pescoço dele e o beijou por vários minutos.

Draco parou o beijo e segurou-a pela cintura, fazendo-a sair de seu colo e sentar-se no divã. Logo depois, inclinou-se sobre ela e a beijou outra vez, agora aprofundando mais o beijo, sua língua explorando a dela com pressa e desejo, como havia tempos não fazia. Suas pernas se entrelaçaram, seus corpos gritavam de saudades um do outro. Astoria chegava a gemer baixinho, só de sentir aquele beijo e aquele corpo tão amado sobre o seu.

Então, Draco parou de beijá-la e olhou seu rosto, numa atitude de completa contemplação. Aproximou-se e começou a beijar o rosto dela carinhosamente, no mesmo lugar onde há meses havia lhe esmurrado. Espalhou beijos delicados próximo ao seu nariz, em seu olho, nas maçãs do rosto, enfim, em todos os locais onde antes estivera aquele horrível hematoma. Por fim ele a encarou, e ela esticou o braço e tocou-lhe o rosto, sorrindo, e o puxou para mais um beijo.

Finalmente, ele começou a desabotoar a blusa dela, lentamente. Ela ofegava. Ele atirou a blusa para o lado e desabotoou sua saia, e a puxou cuidadosamente. Beijou-a mais uma vez, agora acariciando-lhe os seios. A respiração dela estava cada vez mais pesada. Ele tirou-lhe o sutiã e escorreu a calcinha através de suas pernas de um modo lento e sensual, enquanto a encarava.

Beijou-a mais uma vez e começou a despir-se, sem dificuldade, já que estava usando roupas confortáveis. Logo tirou sua roupa íntima e Astoria pôde ver sua excitação e sentir que ele a queria tanto quanto ela o queria.

Ele se apoiou cuidadosamente sobre ela, beijando-a e afastando as pernas dela com as suas. Ela enlaçou seu pescoço, correspondendo ao beijo com paixão. Ele moveu-se de modo a encontrar a posição ideal para não tocar seu ferimento. Então, sua parte mais íntima alcançou a dela.

E antes que ele pudesse avançar um centímetro que fosse, ela retesou e arquejou, sua expressão tomada pelo medo.

Ele a encarou, em dúvida, e ela lhe lançou um olhar de incentivo. Ele tentou prosseguir, mas o pavor estava estampado no rosto dela. Então, ele fez menção de se afastar, e ela o segurou pelos braços com força.

-Não pare! ―suplicou.

-Não posso continuar com isso, você está apavorada! ― ele respondeu, tentando se levantar.

-Por favor, não pare! Eu preciso que você faça isso!

-Mas você está com medo! Eu não quero te fazer sofrer, Astoria!

-Eu quero me livrar desse medo, Draco! Por favor, tire isso de mim! Quero você de volta na minha vida, te quero por inteiro!

-Astoria...

-Por favor!

Ele suspirou ainda em dúvida, mantendo o controle com um esforço extremo. Encarou-a e viu seus olhos suplicantes e percebeu que ela falava sério.

Então, curvou-se sobre ela e a beijou ardentemente, suas mãos emoldurando o rosto tenso dela, e tornou a afastar-lhe as pernas. Olhou para ela, sorriu e, como fizera na primeira vez deles, disse: "Serei gentil.".

Fez-lhe um carinho no rosto e bem devagar, começou a penetrá-la.

Astoria estremeceu. Estava apavorada, mas queria desesperadamente aquilo. Porém, não conseguiu se controlar e começou a soluçar: estava chorando. Draco tentou se afastar, mas ela enlaçou a cintura dele com as pernas, trazendo-o para si. "Não!", gritou. Ele começou a se movimentar num ritmo lento e suave, espalhando pelo corpo dela sensações ambíguas, a dor e o prazer misturados, sem que ela pudesse definir o que era mais forte.

Os primeiros momentos foram angustiantes, mas ela estava decidida a se livrar daquele medo. Mesmo amedrontada, quis continuar. Abriu os olhos e observou o rosto do marido enquanto ele a amava.

Naquele instante, sentiu algo forte, como há muito não sentia. Vê-lo ali, desejando-a tão ardentemente, acendeu o fogo da paixão e ela percebeu que de algum modo não era o homem que a agredira, e sim o seu Draco, que a ensinara a amar e ser amada. Ele estava de volta. E ela não mais o deixaria se perder.

Os gemidos de prazer foram substituindo os soluços de pavor à medida em que ela se entregava mais e mais, completamente esquecida de onde estavam. Aos poucos ela foi se soltando, sentindo-se morrendo e renascendo de amor. Beijou Draco de um modo visceral, agarrou-se a ele com uma força animalesca, sussurrando em seu ouvido o quanto o desejava e queria senti-lo dentro de si, o quanto sentira falta de sentir o corpo dele no seu, e ele, percebendo que ela era sua outra vez, intensificou os movimentos, e os sons de prazer que eles emitiam se fundiram, e já não sabiam onde um terminava e o outro começava, quando juntos explodiram em êxtase, e nada mais existia-nem o ouro ao redor, nem o divã, nem a enorme mansão, só existiam os dois e o amor que transbordava de seus corpos cansados depois daquela entrega total.

Eles se abraçaram, esperando que suas respirações se acalmassem. Ficaram por vários minutos entrelaçados, sentindo o calor, a presença e o cheiro um do outro. Beijaram-se mais, e mais, e mais, sem dizer uma palavra. Seus olhares se encontraram e se sustentaram, e naquele instante, não disseram nada, e se disseram tudo.
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