Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
12 - Distantes

-Você está ficando careca. ― Sentenciou Astoria, sentada sobre o vaso sanitário.

Draco estava diante do espelho, ditando ordens à sua lâmina de barbear, sendo observado pela esposa. Ela acabara de se banhar e estava embrulhada em um roupão felpudo, analisando-o.

-Dá para notar uma diferença bem na sua testa-continuou. ― Quando nos casamos ela parecia menor. Engraçado, eu não tinha notado que seu cabelo caía tanto.

Draco enrugou a testa levemente, enquanto ditava mais um movimento para a lâmina, sem, no entanto responder a Astoria.

-E não pode ser hereditário, não é? Seu pai não sofre de calvície, o que explicaria uma queda de cabelo tão acentuada em um homem tão jovem.

-Quando você estiver aqui se embelezando com seus cremes ― respondeu Draco secamente ― vou me sentar aí e dizer que você está gorda.

Astoria, com uma expressão surpresa e ofendida, disse:

-Ai, amor! Não precisa se zangar, não é? Não estou falando para te ofender, mas sim porque acabei de notar. Puxa vida. Se a ideia te incomoda, você deveria tratar.

-Ou arranjar uma esposa que me dê menos trabalho. ― ele respondeu, com um sorrisinho irônico.

-Rá rá rá. Muito engraçado. ― Astoria disse com sarcasmo. -Falando sério. Você deve estar com algum problema de falta de vitaminas, ou está estressado demais.

Draco ergueu as sobrancelhas.

-Sem dúvida, motivos para me aborrecer é que não faltam. E pensar que eu nem precisaria trabalhar se não quisesse... Começo a pensar se não era uma boa ideia.

Astoria o encarou preocupada.

-Está acontecendo alguma coisa? Nunca o ouvi reclamar, você sempre se orgulhou tanto de sua empresa!

-Não quero falar de trabalho. ― Ele disse, categórico, ao guardar a lâmina. ― Venha. Vamos entrar na banheira.

-Banheira? ― Espantou-se ela, só então notando que Draco a tinha enchido com água quente. ― O que deu em você para querer um banho de banheira tão repentinamente?

-Nada, querida, apenas preciso descansar um pouco e gostaria de ter sua companhia, se possível sem tantas perguntas. ― Ele retrucou, parecendo levemente irritado. ― É possível?

Ela olhou para ele, em dúvida.

-Você sabe que tem algumas coisas que eu não gosto de fazer na água...

Ele riu.

-Relaxa, mulher. É só um banho.

Ele entrou na banheira e ela o seguiu. O lugar era amplo o suficiente para que os dois coubessem confortavelmente. Sentaram-se em lados opostos. Astoria notou o quanto ele parecia relaxar na água quente, com os olhos fechados, curtindo o momento. Algo devia realmente estar lhe causando incômodo no trabalho.

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Astoria brincava com a espuma, enquanto Draco apenas aproveitava a sensação da água. Após alguns tempo, ela começou a brincar com os pés dele, cutucando-os com os seus, mas ele não lhe deu atenção e ela parou.

-Estou pensando em visitar Charlotte, Draco. O bebê deve estar para nascer, não é? Você sabe como ela está? Theodore tem comentado alguma coisa? Será que ela se sentiria confortável recebendo visitas?

Draco não respondeu. Tinha aberto os olhos e estava encarando a água com um olhar perdido.

-Draco? ― chamou Astoria, preocupada. ―Draco?

Ele olhou para ela, como se estivesse despertando. ― Ah, o que foi?

-Você está dormindo ou o quê? ― Ela brincou. Ele respondeu com um sorriso triste.

Astoria foi para o meio da banheira.

-Draco, o que é que está acontecendo? Você está muito esquisito hoje.

Ele pareceu relutar um pouco antes de responder.

-Nada, querida. Já te falei. ―Sorriu para ela. Após alguns instantes disse: - Vem pra cá.

Ela o atendeu e ele abriu um dos braços para acomodá-la. Ela se aconchegou no abraço dele.

Draco a olhou e acariciou-lhe o rosto. Depois, com a mão sob a água, lhe fez um carinho discreto na barriga.

-Você vai ficar linda grávida. ― Comentou.

Astoria respondeu apenas com um sorriso sem graça. Havia muito tempo que não discutiam sobre a questão do filho, mas ela não queria falar nisso agora.

-Estive pensando. Logo que tiver tempo, vou procurar os trouxas. Vou fazer um tratamento para podermos ter nosso bebê.

O rosto de Astoria se iluminou em um sorriso radiante.

-Draco! Você... Tem certeza?

-Claro! Já estamos esperando há tempo demais. Vamos procurar outros meios. Além de eu querer ser pai, quero que você tenha alguém ao seu lado. Não quero que se sinta sozinha.

-Mas eu não me sinto sozinha! Não com você ao meu lado.

Astoria notou um ar preocupado perpassando o rosto do marido, mas não quis insistir para que ele se abrisse.

-Você está muito tenso. Vou lhe fazer uma massagem, para relaxar estes músculos.

Draco chegou mais para frente, de modo que Astoria pôde se colocar por trás dele, passando as pernas pelos lados do seu corpo. Começou a massagear as costas do marido, que parecia relaxar sob seu toque.

-Quanta tensão, hein? O que estão fazendo com meu maridinho?

Ele riu.

-Não importa, meu bem, se estou ganhando essa massagem maravilhosa por conta disso.

Astoria curvou-se e lhe beijou o rosto.

Após alguns minutos, Draco deu-se por satisfeito com a massagem. Puxou Astoria para seu colo e acariciando seu rosto, tirou os cabelos que o cobriam. Olhou em seus olhos com intensidade.

-Sabia que eu adoro esse teu olhão azul?

Ela sorriu e o abraçou. Era tão raro ele fazer aquele tipo de elogio, e ele pareceu tão sincero que ela ficou completamente feliz em ouvi-lo.

Ela se enroscou no pescoço dele e o beijou. Enquanto o beijava, enlaçou sua cintura com as pernas, ficando com o corpo bem colado ao dele.

-Para quem estava preocupada em fazer coisas na banheira, está assanhada demais.

-Não se anime. É só um beijo. ― Ela respondeu com uma voz rouca e sensual.

Draco segurou Astoria pela cintura trazendo-a para mais perto e a beijou com paixão. Havia uma urgência, uma sofreguidão naquele beijo, deixando claro que realmente ele estava pensando em muitas coisas além daquele momento, como se algo pudesse afastar Astoria dali de um minuto a outro.

Poucos instantes depois, quaisquer preocupações foram deixadas de lado quando Astoria percebeu a excitação de Draco, que lhe lançou um sorriso maroto.

-Você disse que era só um banho! ― Ela brincou, sorrindo.

-Era mentira. ― Ele respondeu zombeteiro.

-Vou contar para o meu pai que fui enganada por um homem malvado, que me prometeu um banho de banheira e depois me seduziu.

-Ah, diga que minhas intenções são boas. Eu quero casar.

Ela deu uma gargalhada. Então Draco, sorrindo, saiu da banheira e esticou o roupão de Astoria no chão ao lado. Convidou-a a sair da água, e tão logo ela se pôs de pé ele a atacou com um beijo intenso, deitando-a sobre o roupão.

Ela tinha razão. Não era só um banho...

Os dois estavam em clima de lua de mel desde que tinham feito as pazes, porém, aquele banho de banheira precedeu um grande baque na vida do casal. Algo que fez Astoria ter total certeza de que Draco não estava bem.

Algo que nunca tinha acontecido com ele antes.

Sentado à beira da cama, envergonhado com a situação, ele lamentava:

-Não sei o que houve. É a primeira vez que passo por isso.

Astoria, cansada depois de vários minutos de preliminares que não resultaram em nada, disse de modo condescendente:

-Isso acontece, Draco. Não se preocupe.

Draco lançou-lhe um olhar enviesado:

-Se pensa que me ajuda ficando com pena de mim, saiba que está muito enganada!

-Não estou com pena. ― ela respondeu paciente. ― Só estou sendo compreensiva. ―Concluiu, afastando-se para que ele não se sentisse tão constrangido.

-Ele tem outra ― choramingou Astoria, encarando o espelho de dois sentidos.

Daphne, do outro lado do espelho, tentava consolar a irmã.

-Não faça tempestade em copo d'água. Isso acontece com qualquer homem. Vai ver ele estava cansado.

-Ele nunca falhou, mesmo estando cansado. Tem algo errado, e tenho certeza de que é outra mulher!

-Por que diabos Draco iria procurar outra, tendo você? Olhe-se no espelho! Você é linda, sensual, é uma boa esposa. Por que ele a trairia?

-Não sei! E se ele estiver cansado de mim? Vai ver enjoou, sei lá! Ele tem andado triste, depressivo, calado. E se tem outra e está sofrendo porque não tem coragem de me contar? Vai ver ele tem uma amante grávida! Ah, por Merlin, um filho bastardo! Ele engravidou uma vagabunda! ― Desesperou-se Astoria, apavorada.

Daphne revirou os olhos.

-Por favor, Astoria, não seja dramática. Pare de dar chilique e vá conversar com seu marido. Se ele está tendo este tipo de problema é porque tem algo o incomodando. É hora de você se mostrar solidária.

Astoria assentiu. Em seu íntimo, estava certa da infidelidade do marido, mas decidiu seguir o conselho da irmã.

Porém, antes que ela criasse coragem para interrogar o marido, a resposta aos seus questionamentos surgiu.

Certa noite despertou e ao levantar-se da cama, viu que estava só. Preocupada com o marido, saiu à sua procura.

Desceu as suntuosas escadarias da Mansão Malfoy e foi até o escritório, verificar se Draco estava envolvido com trabalho a uma hora daquelas. Ao aproximar-se, viu que a porta estava entreaberta.

Quando ia avançar pelo recinto, ouviu que alguém chorava. Estacou. Sabia que entreouvir era algo incorreto, mas mesmo assim optou por ficar ali.

Ouviu a voz da sogra, chorosa:

-E como vamos viver, filho? Que vergonha enorme vamos passar! Não é justo passarmos por isso, depois de tanto que já sofremos!

-Não nos faltará nada, mãe. Eles não podem nos tirar todas as nossas reservas. Vamos conseguir sobreviver até que tudo esteja resolvido. ― A voz de Draco era insegura e não combinava com as palavras que ele dizia.

-Mas como ficam as outras coisas? A casa, os empregados? E temos que cuidar do seu pai! Como vou viajar sem dinheiro?

-Você não vai ficar sem dinheiro, mãe. Eu prometo. Não vou deixar você passar necessidades.

Astoria ofegou incrédula. Os Malfoy, passando por problemas financeiros? Era surreal. Ela sabia que a família do marido possuía tantos galeões que eles poderiam passar várias gerações sem se preocupar sequer em trabalhar. Como poderiam agora estar preocupados com as contas do fim do mês?

Sua cabeça mal processara tais informações quando ela ouviu uma pergunta que fez seu sangue gelar nas veias:

-Quando será sua viagem?

Viagem? Draco estava de viagem marcada e ela não sabia?

-Em uma ou duas semanas, no máximo. Zabini está cuidando da parte burocrática, passaporte, essas coisas. Mas não demoro a partir. Isto é, se você me garantir que vai ficar bem.

-E Astoria? Ela está sabendo de tudo isso?

-Não. ― Ele respondeu apressadamente. ― E nem quero que saiba.

-E até quando você acha que poderá esconder? Ela não é burra, cedo ou tarde irá notar!

-Eu sei, mãe, mas... ― Ele parou de falar, como se a ideia que lhe passava pela cabeça o fizesse sofrer. ― Não estou preparado.

-Quanto mais demorar a contar, pior será. Ela se sentirá enganada. ― Narcisa disse, entre um fungado e outro. Astoria, ainda entreouvindo, sentiu seus batimentos acelerarem.

-Mãe, eu não posso simplesmente chegar perto dela e contar isso! Como acha que ela vai reagir?

-Ela é uma boa moça, Draco. Saberá entender.

-Entender? Como uma mulher entenderia que se casou com um homem rico, mas que agora não tem galeões nem para um brinco? Não seria surpresa se ela fizesse as malas em dois minutos e fosse embora. Eu vou dizer a ela, mas quando houver perspectivas mais animadoras. Por enquanto, é melhor que ela não saiba de nada. Vou tentar resolver as coisas e depois comunico a Astoria.

-Depois me comunica o que? ― Astoria indagou, entrando no escritório, incapaz de fingir que não sabia da conversa.

Narcisa estava sentada em uma poltrona e Draco, à sua mesa de trabalho. Surpresa com a entrada da nora, Narcisa secou os olhos apressadamente.

-O que faz acordada a uma hora dessas, menina? ― Indagou.

-Eu poderia perguntar o mesmo a vocês. ―Astoria respondeu encarando Draco.

-Estava sem sono. ― Os dois responderam juntos.

Draco e Astoria olhavam um no olho do outro, sem quebrar o contato visual por um segundo sequer. A esta altura ele já notara que ela sabia que algo estava errado, mas ainda assim tentou disfarçar.

-Mamãe e eu estávamos conversando sobre alguns problemas que tivemos com os negócios. Não é nada com que você deva se preocupar.

-E é por isso que sua mãe está chorando? ― retorquiu a jovem. ― É por isso que você tem estado nervoso, triste, para não mencionar outras questões?

Narcisa levantou-se ruidosamente da poltrona. Aprumou o corpo e disse, olhando para o filho:

-Diga a ela, Draco. Estamos todos juntos nisso. Cedo ou tarde ela iria ficar sabendo.

Ela saiu, deixando o casal a sós.

Astoria observou a sogra se retirar. Então, sentando-se na poltrona que Narcisa desocupou, dirigiu-se ao marido:

-O que está acontecendo, Draco? Vocês estão me deixando apavorada. Você não está doente, está?

Draco suspirou profundamente, lamentando por ter que ter aquela conversa. Passou a mão pelos cabelos e enrubesceu, enquanto se recostava em sua cadeira de espaldar alto.

-Estou com um problema muito sério nos negócios ― começou ele. ― Lembra-se que Zabini voltou da Argentina há algum tempo? Pois bem. Ele esteve por lá cuidando de tudo para estabelecermos negócios na América do Sul. Tratou de tudo, estabeleceu contatos, instalou a empresa, montou escritórios. Até que tivemos a ideia de nos associar a um empresário local.

-Um trouxa? ― Indagou Astoria.

-Um bruxo. ― Respondeu Draco, e prosseguiu: - Um sangue-puro, como nós. Donovan. O maldito Donovan.

-O que houve com ele? ― Astoria perguntou ao mesmo tempo curiosa e preocupada.

Draco engoliu em seco. Todo o autocontrole que possuía parecia estar ao seu serviço durante a conversa:

-Ele usou a empresa para lavagem de dinheiro e envolvimento com vários crimes, não só pela lei bruxa como trouxa. Corrupção, tráfico de influências e até mesmo existe suspeita de envolvimento com um assassinato. A filial da empresa está por um fio.

-Mas se ele fez isso tudo ― observou Astoria ― ele é o culpado e tem que ser preso!

-Não é tão simples, meu bem. ― Ele disse com tristeza. ― Blaise e eu somos os principais acionistas e demos carta branca a ele, porque o achávamos confiável. Ele era apenas um diretor, tinha plenos poderes, mas perante a lei, é como se nós tivéssemos sido coniventes. Em outras palavras, é como se fôssemos tão responsáveis quanto ele pelos crimes que aconteceram sob o nome da empresa.

Astoria boquiabriu-se:

-Isto é terrível!

-É pior do que terrível, Astoria. Blaise e eu estamos lutando contra o tempo, para provar que fomos enganados e também roubados. A empresa está quebrada, corremos até o risco de sermos acusados de sonegação fiscal. E como vamos explicar aos trouxas? Como vamos falar em cotação do galeão e ações do Gringotes?

-Mas Draco, ― interveio Astoria ― eu sempre achei que vocês só lidavam com bruxos!

-Lidamos com trouxas também, mas sempre houve um cuidado, como por exemplo, departamentos especializados em intermediar as relações com trouxas, a fim de não quebrar o estatuto de sigilo. Agora, estamos por um fio. Se não conseguimos resolver tudo, eu poderei ser preso.

Astoria arquejou, levando as mãos à boca. "Não. Isso não!", sussurrou.

-E o pior de tudo ― prosseguiu Draco ― é que, como medida de segurança, o Ministério da Magia bloqueou todos os nossos bens, para garantir que, em caso de quebra da empresa, eu possa quitar todas as dívidas e não expor o mundo bruxo aos trouxas. É complicado. Donovan conseguiu nos envolver em um nó muito difícil de desatar.

Draco olhou para Astoria de soslaio. Parecia esperar que ela saísse dali a qualquer momento e o abandonasse para sempre. Ela, no entanto, parecia pensativa. Após alguns instantes, disse:

-Por isso Narcisa estava chorando, não é? Estamos sem dinheiro. Ficamos pobres de um minuto para outro.

-Não ficamos pobres! ―Draco exclamou. ― Não podemos mexer na maior parte do dinheiro, porque está em meu nome, mas temos alguma coisa em seu nome e nos dos meus pais. Temos o suficiente para nos virarmos por algum tempo, desde que tenhamos um padrão de vida mais modesto.

Ele disse esta última frase com um misto de rancor e vergonha.

Astoria ficou em silêncio mais uma vez. Então, falou:

-Eu posso vender meu ouro. Tenho tantas peças bonitas! Elas renderiam um bom dinheiro. Posso penhorar as joias que você me deu, ou mesmo vende-las, se você não se importar. As da família não, isso não seria justo. Ah, e os vestidos! Tenho centenas de vestidos, a maioria só usei uma vez! Se eu levar à Talhejusto, poderão me dar um bom dinheiro por eles, e...

Não conseguiu terminar, pois de repente viu-se envolvida em um abraço apertado e sufocante. Draco a segurava com força contra seu peito. Beijou-lhe o topo da cabeça com uma atitude que beirava a reverência.

Ele a soltou e entrelaçou suas mãos nas dela. Olhou para suas mãos unidas e disse, com a voz embargada:

-Tirei você da casa de seus pais para lhe dar uma vida de rainha. Agora, que estou lhe dizendo que estou à beira da falência, você se dispõe a se desfazer de seus bens para me ajudar, em vez de ir embora correndo.

-Draco! ― Exclamou ela, surpresa. ― É claro que eu não iria embora! Acha mesmo que eu lhe viraria as costas no momento em que você mais precisa de mim?

Ele engoliu em seco, envergonhado. Astoria estendeu a mão até seu rosto e o acariciou.

Falar em dinheiro era algo delicado entre eles. Ambos sabiam muito bem em que termos haviam se casado. Ainda assim, Astoria, cheia de coragem, afirmou:

-Os motivos pelos quais nos casamos não são os mesmos que nos mantém casados, Draco. Não vou ser fingida e dizer que não sei como foi a sua proposta de casamento para meu pai. Mas aquele casamento foi só papel. Hoje somos casados em alma. Vou continuar com você mesmo se um dia você virar um mendigo.

Draco riu um riso estranho que misturava alegria, tristeza, constrangimento e alívio. Caminhou até onde estava a esposa e estendeu a mão para que ela se levantasse. Ela o fez. Ele levou o dedo polegar ao rosto dela e lhe fez um carinho emocionado. Ela sorriu. Os dois se abraçaram e ele murmurou em seu ouvido:

-Você foi a melhor coisa que já me aconteceu nesta vida.

Eles se beijaram com ternura, aliviando a tensão daquele momento e se sentiram unidos como jamais haviam estado.

Astoria sentou-se novamente. Draco voltou à mesa. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela fez a pergunta que a estava incomodando:

-Que viagem é aquela da qual sua mãe estava falando?

Draco rapidamente levantou a cabeça, encarando-a com um olhar assustado. Imediatamente Astoria percebeu que a história não apenas não estava completa, mas que a parte mais difícil ainda não tinha sido contada.

-A viagem. Pois é, a viagem. ― Draco murmurou, obviamente tentando ganhar tempo. Astoria aguardou ansiosa, apertando as mãos nervosamente. Draco a observava furtivamente enquanto ela esperava por péssimas notícias.

Ele saiu da mesa outra vez, aproximou-se e sentou em outra poltrona, ficando bem próximo a Astoria. Olhou em seus olhos e era claro seu sofrimento ao dar a notícia.

-Terei que ir para a Argentina, resolver pessoalmente todos estes problemas. Sem previsão de retorno.

Astoria ergueu as sobrancelhas. Não era tão grave, afinal. Certamente não seria muito fácil se adaptar a um país completamente diferente assim, de uma hora para outra, mas ela faria um sacrifício. O importante era apoiar o marido.

-Tudo bem, Draco. Nunca pensei em morar na América do Sul, mas também, não é o fim do mundo. Tudo é uma questão de nos adaptarmos, e...

-Você não poderá ir comigo. ― Ele cortou a fala dela, sua voz demonstrando o quanto era difícil dizer isto.

Ela parou de falar. Sua expressão era confusa.

-Como assim não poderei ir? ― Sua voz saiu esganiçada, sua respiração acelerou e seu lábio inferior tremia, demonstrando seu nervosismo.

-Tentei conseguir seu visto de entrada na Argentina, mas não consegui. O Ministério da Magia está interferindo nisso, querem que eu mantenha vínculos aqui para garantirem que não vou sumir pelo mundo. É uma idiotice, não é? Mas como você e mamãe são alguns destes vínculos, eles deram um jeito de fazer com que seu nome constasse da lista de pessoas não autorizadas a sair do país.

-Não é possível, querido! Tem que haver algum modo de remediar isso! ―Ela exclamou, inconformada.

-Já tentamos tudo o que podíamos, Astoria. Estamos tentando que ao menos você possa ir depois, mas a princípio, terei que ir sem você.

Astoria precisou de todas as suas forças para segurar o choro. Queria insistir, mas ao mesmo tempo sabia que precisava compreender. Tentando manter-se firme, mesmo com a voz embargada denunciando o pranto, indagou:

-Como vou ficar aqui por vários dias, semanas... Meses, talvez, sem você?

Draco olhou-a com tristeza.

Estou me perguntando a mesma coisa. Como vou suportar ficar tanto tempo sem cuidar da minha menina?

Ele a abraçou e ela pousou a cabeça em seu peito. Por fim, as lágrimas que ela tanto se esforçou para conter desabaram sem disfarce pelo seu rosto.

Duas semanas depois...

Draco empurrava o carrinho com suas malas pelo saguão do aeroporto. Mal conseguia disfarçar o quanto o desagradava estar ali ― não apenas pela situação que o levara até o local, mas também pela presença maciça de trouxas.

Astoria acompanhava-o em silêncio, decidida a manter uma postura estoica, a fim de que o marido partisse com um mínimo de preocupação. Ao seu lado Narcisa, também incomodada com o local, conversava com o filho e lhe fazia mil recomendações típicas de mãe.

Sentaram-se à espera do anúncio do voo, enquanto observavam o telão com os nomes das cidades. Dublin, Paris, Nova York, Rio de Janeiro, Buenos Aires... O mundo passando diante de seus olhos através daquela tela, mas eles não tinham olhos para nada.

Quando o horário marcado para o voo estava próximo, Draco segurou com firmeza a mão de Astoria. Era difícil dizer quem parecia mais triste. Ele a olhou nos olhos. Havia tantas coisas não ditas naquele olhar que aquele instante pareceu se estender por longos e longos anos. Então ele pousou as mãos carinhosamente no rosto da esposa.

-Promete que vai se cuidar?

Ela assentiu com um movimento de cabeça.

-Promete que vai ficar bem?

-Como vou ficar bem com você longe, passando por este turbilhão de coisas sozinho e em um país distante?

-Estou mais preocupado com você do que comigo. Com as duas, na verdade. -Ele disse, pensando na mãe. ― Vou fazer o possível para resolver o problema do bloqueio dos nossos bens rapidamente e para trazer você para perto de mim. Por enquanto, por favor, seja forte.

Ela tornou a assentir.

Mais alguns minutos se passaram, e o voo finalmente foi anunciado. Draco dirigiu-se ao portão de embarque. Astoria, cuidadosa, pegou o cartão de embarque em sua bolsa e lhe entregou. Ele o pôs no bolso, para poder se despedir.

Narcisa abraçou e beijou o filho, além de lhe dizer palavras de conforto e otimismo. Ele a beijou e prometeu que estaria de volta tão rápido quanto fosse possível.

Quando Draco abraçou Astoria, ela agarrou-se a ele com força, sem se importar com as pessoas ao redor. Todo o seu estoicismo caiu por terra quando ela, com lágrimas nos olhos, suplicou baixinho:

-Não me deixe aqui, Draco! Leve-me com você!

Pego de surpresa, ele não sabia como reagir.

-Nós conversamos tanto sobre isso, querida! Agora não se pode fazer mais nada, está bem? Prometo que quando chegar a Buenos Aires, a primeira coisa que farei será entrar em contato com as autoridades para tentar liberar seu visto.

-Eu não quero ficar aqui sem você, Draco! Por favor, me leve!

-Astoria, eu... Eu não posso! Você sabe.

Com dificuldade, ele beijou o topo da cabeça da esposa, mas ela não o soltava. Todos os passageiros já haviam embarcado. O funcionário da companhia aérea sinalizou que ele precisava ir. Então, Narcisa aproximou-se e gentilmente começou a afastar a nora de seu filho. Astoria a acompanhou relutante e o viu entregar o bilhete e entrar pelo portão de embarque. Draco lançou um último olhar cheio de lamento para Astoria e ela o viu desaparecer pelo corredor que o levaria ao avião.
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