Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
13 - Tentação

Três meses depois...

Astoria, aproveitando o tempo que lhe sobrava, estava fazendo uma visita a Charlotte. A agora esposa de Theodore Nott já tivera seu bebê e a convidara para conhecê-lo.

Theodore parecia encantado com a criança. Era uma menina gorducha e bochechuda, de pele branquinha com pequeninos olhos castanhos ― escuros e uma vasta cabeleira negra. O papai orgulhoso embalava a criança sob o olhar entediado da esposa.

-Não é linda a minha princesinha, Astoria? ― Dizia ele, segurando o bebê e fazendo carinho nos cabelinhos sobre sua testa. ― Minha Jullie não é uma gracinha?

-Sim, Theo, ela é linda! ― Astoria respondeu encantada.

-Quer segurá-la um pouquinho?

Charlotte levantou-se de sua poltrona com um ruído de exasperação.

-Ah, Theodore, deixe de ser bobo com essa garota! Ninguém é deslumbrado como você, que parece que nunca viu uma criança antes e não pode desgrudar dela um minuto!

Ele a olhou muito zangado:

-É a minha filha. Posso curtir minha menina, por favor?

Charlotte dirigiu-se ao banheiro de sua suíte resmungando:

-Que coisa mais ridícula.

E fechou a porta com força.

Astoria ficou chocada com a postura de sua amiga por conveniência. Theodore, por sua vez, lançou um breve olhar irritado para a porta pela qual sua mulher desaparecera, logo depois começou a passar o bebê para Astoria.

-Quando você e Draco tiverem seus filhos ― ele comentou ― faça um esforço para ser mais agradável do que essa daí. Que mulher mais chata. Reclama de tudo o tempo inteiro. A única coisa que faz é amamentar, e ainda assim, se irrita com tudo. Se não fosse pela minha garotinha eu a enxotava daqui.

Astoria deu um riso constrangido.

-Ela é sua esposa, Theodore. Você não poderia enxotá-la.

-Você é que pensa. ― Ele retrucou. ―Aliás, pela pouca atenção que ela dá à menina, acho que logo poderei fazer isso. Jullie não precisa de uma mãe tão egoísta. ― Ele concluiu, ajeitando o bebê nos braços de Astoria.

-Tenha paciência, Theo. A bebê ainda é muito novinha e Charlotte está se adaptando à nova vida como mãe. Amamentar, acordar de madrugada, tudo isso deve ser muito cansativo.

-Você está brincando, não é? ― Theodore disse com tom debochado. ― Ela só amamenta se estiver acordada! Quando vai dormir, tira litros e litros de leite para a menina tomar na mamadeira! Nunca trocou uma fralda. Dorme o dia todo, se deixar. Não faz nada pela menina. Se as babás não cuidarem, ela fica largada.

Astoria arregalou os olhos:

-E você não faz nada? Você é o pai, deveria tomar providências!

-Eu tentei. ― Ele respondeu triste. ― Dispensei as babás por um dia e fui trabalhar. Quando cheguei, a menina estava com a fralda suja e chorando de fome, enquanto a preguiçosa dormia no quarto ao lado. Depois disso, acabei me rendendo. Cuido de manter sempre duas babás disponíveis e Charlotte o mais satisfeita possível. Tudo pela minha filhinha, que não tem culpa de a mãe ser uma imbecil.

Theodore beijou a testa da menina.

-Tenho que sair. Importa-se de ficar com ela até Charlotte sair do banheiro?

-Claro que não. ― Astoria respondeu sorrindo.

Theodore agradeceu e saiu. Astoria ficou olhando para a menina, pensativa. Depois de ouvir aqueles absurdos, sua vontade era sair correndo com a criança e cuidar dela para sempre. Pensava em como era injusto que ela, que tanto queria ser mãe, não engravidava, enquanto Charlotte, uma alpinista social, conseguiu em menos de três meses.

-Coisinha fofa da tia Astoria! ― Brincou ela, acariciando o rostinho da bebê. ― Você é uma florzinha, sabia?

-Quer pra você? ― Charlotte disse sarcástica, saindo do banheiro.

-Não diga isso, mulher. Sua filha é linda. Você deveria sentir-se orgulhosa.

-Espere até ter peitos rachados e você verá que não é para tanto. Aliás, quando é que você vai ter filho, heim? Ah, agora não pode mais, não é? Com Draco lá na Argentina, quero dizer.

-Pois é, Charlotte. Agora terei que esperar. ― Astoria respondeu, sentindo-se triste e constrangida.

-Ou aproveitar. ― Charlotte disse, aproximando-se de Astoria e sussurrando.

-Aproveitar? O que quer dizer?

Charlotte a olhou com uma expressão penosa:

-Não seja tão bobinha, querida. Arrume um amante com as características de Draco, engravide dele e corra para a Argentina! Depois, diga que engravidou lá e quando chegar a hora, diga que terá um bebê prematuro! Trate de amarrar seu homem!

Astoria ficou assombrada com aquela ideia absurda.

-Você enlouqueceu? Não vou trair meu marido!

-Tsc , tsc. Tão tolinha! Acha o que, que seu marido está em abstinência? ― Ela riu. ― A esta altura ele já comeu metade das mulheres de Buenos Aires.

-Eu realmente não preciso ouvir isso. ― Astoria dirigiu-se à cama do casal e colocou a bebê cuidadosamente ali. ― Tchau, Jullie. ― Murmurou. ― Boa sorte com sua mãe.

E saiu do quarto, irritada, sob os pedidos de desculpas de Charlotte, os quais fez questão de ignorar.

Enquanto isso, na Argentina...

Draco e Blaise comunicavam-se pelo espelho de dois sentidos.

-Então, os números bateram. ― Disse o loiro. ― Ótimo. Menos um problema. Logo vamos conseguir desfazer um dos nós que Donovan criou.

-Excelente. ― Concordou Blaise. ― Se conseguíssemos pôr as mãos nele, seria perfeito.

-No momento prefiro não vê-lo, pois acho que se o encontrasse ele não sobreviveria para contar a história.

-Sossegue cara. Vamos resolver esse rolo, você vai ver.

-Assim espero. Acho que estamos no caminho certo. Vou precisar de sua ajuda com uns documentos que ficaram em minha casa. Você terá de ir lá e pegá-los no escritório. São essenciais para eu resolver mais coisas aqui.

-Tudo bem. Passarei lá amanhã.

-Bem, acho que por ora podemos encerrar. Já adiantei muita coisa. Francamente, Zabini, você deixou muitas brechas para o Donovan se espalhar. Não foi à toa que ele obteve tanto êxito em arrancar dinheiro nosso e ferrar a empresa.

A expressão no rosto de Blaise tornou-se grave.

-Sei disso, Malfoy. Cometi erros que causaram toda esta confusão, mas vou ajudar a acabar com isso.

-Assim espero. ― Comentou Draco, enquanto começava a organizar seu material de trabalho sobre a mesa.

Zabini então indagou:

-Como estão as coisas aí na Argentina?

-Os negócios? Estão se resolvendo, não acabei de lhe dizer?

-Não falo disso, estou falando de você. Conseguiu se adaptar bem à vida aí?

Draco suspirou enquanto alongava a coluna.

-Estou tentando. É tudo muito diferente e sem companhia fica ainda pior. Porém, estou me acostumando.

-E está aproveitando a vida de solteiro?

Draco riu.

-Eu ainda sou casado, Zabini.

Blaise ergueu as sobrancelhas.

-Sei disso, mas não me diga que ainda não conheceu las chicas argentinas?-Perguntou, falando em espanhol com um tom jocoso.

Draco riu outra vez.

-Que é isso, hermano! ― Draco respondeu, falsamente ofendido. ― Está achando que só porque estou longe da minha esposa vou sair por aí seduzindo todas as mulheres?

Zabini fez um muxoxo de incredulidade.

-Do jeito que você é e com essa boa pinta, acho muito provável.

Draco deu uma sonora gargalhada.

-Que é isso... Olha o mau juízo que você faz da minha pessoa! E se diz meu amigo!

-É por ser seu amigo que digo com toda a certeza, afinal, conheço-o muito bem para saber que você não ficaria esse tempo todo na mão. Estou mentindo?

Draco não respondeu. Apenas se recostou confortavelmente em sua cadeira, enquanto um sorriso maldoso se abria em seu rosto.

Enquanto estavam separados, Astoria e Draco mantinham conversas através do espelho. Ela falava da sua rotina na Inglaterra e ele, dos progressos nos negócios. Embora ficasse esperançosa ao ouvir que estava tudo melhorando, Astoria sentia-se triste com aquelas conversas, pois ver seu marido e compreender que ele estava tão longe a deixava deprimida. Não raramente as conversas terminavam com ela às lágrimas, suplicando para que o marido mandasse busca-la. Ele ficava mortificado, mas não podia fazer nada. Tentava conseguir a autorização para que ela deixasse o país desde que chegara à Argentina, sem sucesso.

Ela intensificara sua produção de joias e começara a fazer contato com outras pessoas para comercializá-las, a fim de juntar dinheiro para o caso de alguma emergência, pois não queria causar preocupações a Draco. Como era uma talentosa artesã do ouro, logo conquistou uma boa clientela, destacando-se entre os profissionais mais experientes. Paralelamente, tentava conseguir embarcar para Buenos Aires por seus próprios meios.

Em uma dessas conversas pelo espelho, Draco lhe comunicou da visita que Blaise Zabini faria à casa para buscar documentos.

-Tudo bem. ― Respondeu. ― Quando ele virá?

-Amanhã mesmo. ― Informou Draco. ― Ele precisará usar o escritório. Faça o favor de recebê-lo para mim.

-Amanhã? Não pode ser outro dia? ― Indagou Astoria, preocupada.

-Preciso disso com urgência, querida. Qual o problema de Zabini ir amanhã?

Astoria titubeou antes de responder.

-É que Narcisa não vai estar em casa. Ela comentou que iria ver Lucius.

-E o que é que tem? ― Draco indagou, desconfiado.

-Tem que não é de bom tom um homem vir aqui quando eu estiver sozinha em casa, não é, querido? ― Astoria respondeu um tanto irônica. Draco, no entanto, pareceu ponderar. Por fim, disse:

-De fato, esta ideia não me agrada, mas não tenho opção. Porém, sei que posso confiar em você e tenho certeza de que Zabini não fará nenhuma gracinha. ― concluiu, com a voz arrastada e distante, como se não acreditasse em uma só palavra do que acabara de dizer.

-É, você tem razão. ― Refletiu Astoria. - Além disso, não terei que fazer nada mais do que lhe oferecer um chá, certo?

-Isso mesmo. ― Draco sorriu satisfeito e lançou um olhar cheio de ternura para a esposa.

-E você, meu bem? Como tem passado?

-Muito bem. ― Ela respondeu apressada. ― Visitei Charlotte, ela está insuportável, você precisa ver. Tenho feito mais joias, cada peça linda, minhas amigas ficaram loucas quando mostrei. Eleonora me enviou uma coruja, ela desconfia que vai ter um bebê, estamos torcendo! Estive visitando o Beco Diagonal e...

-Astoria. ― Chamou Draco, interrompendo-a.

-O quê? ― Ela respondeu surpresa.

-Não precisa tentar me enrolar. Seja sincera. Me diga: como você está?

-Estou bem, Draco. É sério! ― Astoria respondeu com polidez.

-Você não parece nada bem. Está com a expressão cansada, tem olheiras e parece triste.

Uma expressão magoada surgiu no rosto de Astoria.

-Puxa vida, Draco. Estou aqui abandonada e é assim que você me dá apoio?

-Você não está abandonada. Estamos passando por um momento difícil, mas tudo vai se resolver.

-É mesmo? Quando? Já tem quase quatro meses que você está aí e nada de este problema se resolver. Eu me pergunto se você tem mesmo feito algum esforço para que eu possa ir também.

-Astoria, por favor, não comece.

-Ah não, claro que não. Não cabe a mim questionar, não é? Acho que sou mesmo uma estúpida por me conformar com esta situação.

-Isto não é ser estúpida, e sim ser companheira. Agora, se lhe custa tanto esforço...

-Me custa tanto esforço ficar longe do meu marido! ― Ela desabafou, em tom de súplica. ― Será que você não entende que sinto sua falta? Como acha que me sinto ficando aqui sem você?

-Também sinto sua falta, meu bem, e estou tentando resolver! Apesar de achar que o ideal seria você ficar aí fazendo companhia à minha mãe, tenho tentado todos os meios possíveis para trazê-la, mas está difícil! Por favor, seja compreensiva.

-Compreensiva. ― Ela resmungou. ― Tenho sido compreensiva até demais.

-Você está sendo infantil.

-Infantil? Estou sendo infantil? Ora, hoje você está mesmo inspirado! Por que me chamou, para ficar me insultando? Ah, faça-me o favor! ― Ela disse, levantando-se da cadeira e saindo do escritório. Ainda ouviu os gritos de Draco chamando-a de volta, mas ainda assim saiu e bateu a porta.

Dois segundos depois retornou, arrependida por ter desperdiçado com uma briga aqueles poucos minutos de companhia, ainda que "virtual", de seu marido. Porém ao encarar o espelho não viu mais Draco, e sim o seu próprio rosto. Chamou o marido uma ou duas vezes, mas ele não a atendeu e ela não insistiu. Dirigiu-se ao quarto chateada, lamentando o fato de a tristeza tê-la deixado tão intempestiva.

Blaise chegou no início da tarde à Mansão Malfoy.

Astoria o recebeu educadamente, mas sem estender-se longamente em conversas. Indicou-lhe o escritório, que ele por sinal já conhecia, e deixou-o lá trabalhando enquanto ela se ocupava na ourivesaria.

A presença de Blaise na casa a perturbava. Queria ignorá-lo, mas não havia como fingir que ele não estava, até porque seria desconcertante ter de explicar os motivos de não ser uma boa anfitriã. Concomitantemente, ainda estava chateada com a discussão que tivera com Draco na noite anterior e esperava falar com o marido após ele e Blaise trabalharem, pois desejava pedir-lhe desculpas por ter sido tão rude.

A noite já estava chegando quando Astoria arrumou suas coisas e fechou a ourivesaria. Perguntou por Zabini a uma das empregadas, e ao ouvir que ele ainda se encontrava no escritório, foi até lá.

-Blaise? Posso entrar? ― Indagou.

-Claro que pode. Você está em casa. ― Ele respondeu com simplicidade. Estava de pé diante da mesa, aparentemente terminando de organizar alguns documentos.

Ela entrou cautelosamente.

-Draco está aí? ― Ela perguntou indicando o espelho.

-Não, mas vou chamá-lo daqui a pouco. Só estou encerrando algumas coisas.

Astoria suspirou desapontada e foi andando em direção à porta. Blaise a chamou de volta:

-Você queria me dizer alguma coisa?

-Ah sim. ―Ela respondeu, voltando para perto dele. - Já ia me esquecendo. Vim convidá-lo para o jantar.

-Se não for incomodá-la. ― Ele respondeu.

-Não, não será incômodo algum. E é bom para eu ter uma companhia. ― Ela completou, arrependendo-se da frase logo depois ao ver na expressão de Blaise que ele a interpretou com duplo sentido.

-Será um prazer. ― Ele disse, sedutor.

-Você não tem jeito, não é? ― Ela retrucou, irritada.

-Ei, calma! Foi só uma brincadeira!

-Não ando com humor para brincadeiras. ― Ela respondeu. Logo depois inspirou, tentando se acalmar. ― Desculpe-me. Você não tem nada a ver com meus problemas.

Blaise abandonou a pose de sedutor e disse com sinceridade:

-Se eu puder ajudar em alguma coisa, pode contar comigo.

Astoria considerou por alguns instantes se ele seria a pessoa certa a ouvi-la. Decidiu-se, por fim, a desabafar com ele mesmo, já que estava ali tão solícito. Encostou-se na mesa ao lado de Blaise, e disse:

-Estou sentindo muito a falta de Draco. Está sendo difícil para mim este afastamento. Se ao menos eu soubesse quando ele vai voltar, mas nem há sinal disso.

-Compreendo. Mas posso garantir que ele está indo bem nos negócios. Tem tino comercial, o danado. Ele logo retornará, tenho certeza. ― Ele deu a volta na mesa, indo recolher alguns documentos que estavam sobre ela.

-Espero que sim. ― Ela disse vagamente. ― Ficar sem ele tem sido uma tortura. ― Completou, distraída ao olhar uma foto dela com o marido, que estava sobre a mesa.

-Faço ideia. ― Blaise respondeu, observando Astoria sem disfarce e deleitando-se com a visão do seu corpo emoldurado por calças justas e uma blusa discreta, suficientes para que ele observasse cada curva. ― Ele deve estar sentindo a mesma coisa lá na Argentina.

-Espero que sim. ― Ela retrucou com tristeza. ―Isto é, se não tiver arranjado outra mulher por lá, não é?

Blaise retornou para a frente da mesa e aproximou-se lentamente de Astoria.

-Draco não pode ser tão burro.

-Como é? ― Astoria indagou rindo, surpresa com aquela frase inesperada.

Blaise se aproximou ainda mais. Ergueu a mão lentamente e pegou uma mecha solta do cabelo de Astoria, colocando-a atrás de sua orelha, enquanto dizia:

-Ele pode ter sido tolo o suficiente para ir para a Argentina e deixar uma mulher como você aqui sozinha, mas não vai ser idiota o bastante para trocá-la por qualquer outra, sabendo a delícia que você é.

Ao dizer isso, sua mão baixou rapidamente para o pescoço de Astoria, puxando-a ao seu encontro. Um instante depois ele a enlaçava e seus lábios se encontravam em um beijo ardente e sôfrego movido pelo calor de um desejo proibido.
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