Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
14 - Descoberta

Era como mergulhar em águas profundas sem saber nadar: não dava para saber onde terminava a aventura e começava o pânico.

Astoria sentia que estava errada. Muito errada. Sabia muito bem que aquilo podia ter consequências trágicas. O fato, porém, era que ela não conseguia parar.

Ela não queria parar.

Enquanto seu lado racional suplicava para que ela se afastasse de Blaise Zabini, seu lado emocional se jogava sem pudor nos braços dele. Sua mente gritava para ela fugir dali, mas cada célula do seu corpo desejava estar naquele lugar. E ela entregou-se àquele beijo com todas as suas forças, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte e aquela fosse a sua única oportunidade de se sentir tão desejada, tão mulher.

Blaise não fazia por menos: explorava a boca da esposa de seu amigo e sócio com voracidade, suas línguas se entrelaçavam sensuais, transbordando o desejo há tempos contido. A menina que ele dispensara anos antes e que já então despertava seus instintos tornara-se uma mulher absurdamente atraente, e estava ali, ao alcance de sua mão.

O perigo era iminente: a qualquer instante poderiam ser flagrados por algum empregado ou mesmo por Narcisa, que poderia voltar para casa inesperadamente, mas nem isso os fazia recuar. Pelo contrário: quanto mais se beijavam, mais se queriam.

Blaise fez com que Astoria encostasse-se à mesa e colou seu corpo ainda mais ao dela. Passou uma mão por suas costas e a repousou em seus quadris, enquanto a outra se emaranhava em seus cabelos e o ajudava a aprofundar o beijo. Ela deixava escapar gemidos de prazer. Ambos suavam e se agarravam fervorosamente e seus corpos sinalizavam perigosamente que aquele beijo não seria o suficiente.

Pararam por um instante, apenas para se olharem e verem o desejo estampado no rosto um do outro. Então, se aproximaram novamente e retomaram o beijo, com ainda mais ímpeto e com a mesma paixão.

Confiante, Blaise começou a enfiar a mão lentamente por dentro da blusa de Astoria que, extasiada, não ofereceu resistência. Ele, porém, não avançou muito, pois mal tocara aquela pele alva e macia, ouviram uma voz conhecida soando em algum lugar atrás dela.

-Zabini?

Astoria afastou-se de Blaise como se ele tivesse lhe dado um choque. Encarou-o com os olhos arregalados, completamente apavorada. Blaise olhou para a mesa viu que era Draco chamando pelo espelho de dois sentidos. Suspirou profundamente, lamentando a interrupção. Fez um sinal indagando à Astoria se estava tudo bem com sua aparência e ela assentiu, embora não estivesse muito atenta a qualquer detalhe que os denunciasse. Antes que Draco pudesse tornar a chamar, Blaise disse "sim", atendendo ao chamado, e foi se acomodar na cadeira do amigo.

-Estou esperando seus dados para fazer o fechamento.

-Já estão aqui, Malfoy. Terminei agora.

Astoria observou a desenvoltura de Blaise, falando com Draco tão naturalmente que não parecia que ele e sua esposa estiveram se atracando alguns instantes antes. Pelo que ela podia notar, não era algo excepcional ele se envolver com as mulheres dos amigos-pelo menos era o que parecia, dada sua tranquilidade.

Blaise e Draco ficaram conversando por longos minutos, sempre observados por Astoria, que parecia congelada encostada à parede, fora do campo de visão possibilitado pelo espelho. Blaise sequer lhe lançava um olhar, como se não a visse mais. Então, após um falatório enorme que levou quase uma hora, eles terminaram.

-Excelente trabalho, Zabini. Com isso já tenho muita coisa praticamente resolvida. Leve os documentos com você, tem mais coisas aí que vamos precisar analisar.

-Tudo bem, Malfoy.

-Por hoje chega. Estou exausto. Você viu minha mulher por aí?

-Astoria? ― Blaise disse, mais para ter a oportunidade de desviar o olhar e ver o que ela sinalizaria. ― Eu a vi quando cheguei, mas depois não a vi mais. Quer que peça a alguém para chama-la?

Ela sinalizou freneticamente indicando que não queria falar com o marido. Para sua sorte, porém, ele mesmo disse:

-Não precisa, não. Nós tivemos uma discussão ontem e ela não me procurou. Deve estar esperando que eu dê o braço a torcer e tome a iniciativa de falar com ela. Deixa pra lá. Vamos ver quem cansa primeiro.

Astoria suspirou aliviada. Blaise, porém, estava disposto a brincar:

-Você é doido. Se eu estivesse a quilômetros de distância, não iria querer deixar minha mulher aborrecida.

-Eu confio na minha esposa, Blaise. ― Draco afirmou categoricamente.

Astoria baixou a cabeça, enrubescendo. Um sentimento de profunda vergonha a assomou e de repente ficou difícil respirar.

Blaise sorriu para Draco:

-Fico feliz por você ter uma companheira tão honrada e fiel. Um homem de sorte, você.

Astoria fuzilou-o com o olhar. Já estava se sentindo péssima, e ver Draco sendo feito de bobo não estava ajudando em nada. Blaise, percebendo a irritação dela, finalizou a conversa:

-Já que terminamos, vou indo. Não deixe de me chamar se for necessário.

-Sim, Blaise. Obrigado. Olha, se vir Astoria por aí diga que...

Astoria desencostou da parede, ansiosa. Draco, porém, disse:

-Não diga nada. Deixa pra lá.

Desapontada, ela voltou a se encostar na parede. Remoendo o desprezo de Draco, não percebeu que Zabini estava se aproximando. Quando viu, ele já estava puxando-a pela cintura e dizendo:

-Onde foi que paramos mesmo?

Astoria desvencilhou-se dele apressadamente, nervosa, e distanciou-se.

-Você está louco? Pare já com isso!

Ele riu desdenhosamente.

-Ora essa, o que houve? Estava tão gostoso antes de sermos interrompidos!

-Caso você não se lembre, sou uma mulher casada!

-O que não nos impediu de dar uns bons amassos.

-Cale a boca! ― Ela exclamou desesperada. ― Foi um momento de fraqueza! Um deslize! Eu não queria!

-Ah, você queria sim. ― Zabini zombou. ― A julgar pela voracidade com que enfiou a língua na minha boca, não só queria como queria muito.

Astoria fitou-o cheia de raiva.

-Não nego que gostei, mas foi uma loucura momentânea. Não é como se nós estivéssemos tendo um caso.

-Só porque você não quer. ― Declarou Blaise, sedutor. Astoria chocou-se com as intenções dele.

-Como você pode ser cretino a este ponto? Você e Draco são amigos!

-Amigos, amigos. Mulheres à parte.

-Isto podia ser válido para as vagabundas que vocês dividiam quando ele era solteiro. Para mim, não!

Blaise lhe lançou um olhar lascivo e irritante:

-Qual é, Astoria! Você me deseja, não negue! Draco está bem longe agora, é a sua oportunidade de satisfazer todo esse tesão escondido.

Astoria forçou um riso.

-Sua autoconfiança chega a ser ridícula. Você me pegou em um momento de fraqueza, foi apenas isso. Eu não quero ter um amante.

Dizer isso fez com que ela caísse em si, dando-se conta do que tinha feito. Levou as mãos à cabeça e disse, em tom de lamento:

-Por Merlin! Eu traí meu marido!

Blaise ficou surpreso com a reação dela e deu uma gargalhada.

-Ah, pare com isso! Foi só um beijo! Não é como se tivéssemos feito sexo ou algo assim.

Ela suspirou, com tristeza.

-Para ele é a mesma coisa! Por muito menos que isso ele...

Calou-se antes que as lembranças viessem à tona e apreendeu a situação em que estava. Tinha traído o marido com o melhor amigo dele, o que significava que aquilo não seria segredo por muito tempo.

Angustiada, encarou Zabini e pediu com sinceridade e uma pontada de desespero:

Por favor, não diga nada a Draco.

-É claro que não direi. Pode ficar sossegada. Se nem do nosso passado inocente ― ele riu, sarcástico ― ele ficou sabendo, agora é que não serei doido de falar.

-Obrigada. ― Ela agradeceu, um pouco aliviada.

-Até porque ― prosseguiu ele ― prefiro deixar as portas abertas.

Astoria, sentindo-se insultada, questionou:

-O que está insinuando?

Zabini respondeu com astúcia:

-Não estou insinuando, estou afirmando: não vou me conformar enquanto não fizer amor com você.

Surpresa e indignada, Astoria disse entredentes:

-Eu nunca poderia fazer amor com você, Blaise, porque eu não te amo. Eu amo o meu marido!

-Então, vou colocar em termos mais realistas: não vou sossegar enquanto não te comer.

Chocada com aquelas palavras ela murmurou: "Como ousa?", mas ele logo a interrompeu:

-Ora, eu falo em fazer amor e você recusa, então falo em te comer e você não gosta. Decida qual das minhas facetas você quer. O romântico ou o cafajeste? ― Ele indagou, jocoso.

Astoria respondeu como se ele lhe causasse nojo:

-Nenhum dos dois.

-Mas terá. Eu já te queria quando você era só uma garota, imagine agora, que se tornou uma mulher espetacular. Quero você. Te quero nuazinha e de quatro na minha cama.

-Saia da minha casa agora ou não respondo por mim! ― Astoria gritou, apontando a porta e ofegando de raiva. Mas em vez de se afastar, Blaise se aproximou ainda mais, decidido a continuar seu jogo:

-Você não está em posição de me destratar, queridinha. É melhor ficar mansinha, ou posso mudar de ideia sobre aquilo de não contar ao Draco.

Ela o encarou bufando de ódio:

-Vai me chantagear? Não posso acreditar que você se rebaixe a este ponto.

Ele ergueu uma sobrancelha e seu olhar tornou-se sombrio. Repentinamente ele pareceu perigoso.

-Não preciso chantageá-la, Astoria. Para mim, isso não tem graça. Vou te seduzir até você vir parar aqui. ― Ele apontou para a palma da própria mão, deixando-a mais irritada.

Astoria riu com desdém, apesar de estar assustada:

-Vá sonhando. Você não tem capacidade de me tirar do meu marido. Só conseguiu o que teve hoje porque me pegou num momento de fraqueza e carência, mas não terá nada além disso. Você não é homem o bastante para me fazer trair Draco deste jeito. Você não é páreo para ele!

A expressão de Blaise se transformou. De sombrio e debochado ele passou a parecer violento.

Em um movimento rápido, agarrou Astoria e imobilizou seus braços, forçando-a contra a parede. Aproximou seu rosto do dela, que murmurava: "me solta!", e com os lábios bem próximos aos dela, disse cheio de raiva:

-Você é muito insolente, e também muito inconsequente. Não devia brincar assim com o moral de um homem. Pois fique sabendo que agora mesmo é que não vou desistir. Só me darei por satisfeito quando passar uma noite inteira metendo em você, e só não vou fazer isso agora porque não sou estúpido o bastante para forçá-la, mas é questão de tempo. Você vai ser minha.

-Seu grosso! Imundo! Me larga!

Um segundo depois ele colou os lábios aos dela, que tentou se desvencilhar virando a cabeça para o lado e mantendo a boca fechada, mas ainda assim sentiu a língua dele tentando invadir sua boca. Finalmente ele deu-se por satisfeito. Pegou os documentos sobre a mesa e dirigiu-se à porta.

-Desculpe, mas não vou ficar para o jantar. Tenha uma boa noite. E divirta-se criando desculpas para fingir para você mesma que não gostou do que aconteceu aqui.

Blaise saiu e Astoria permaneceu alguns minutos no mesmo lugar, respirando fundo e tentando assimilar tudo o que tinha acontecido ali. Parecia que o ar estava rarefeito. Ela fechou os olhos e deu um profundo suspiro para se acalmar, e ao abri-los deparou com a foto que retratava ela e Draco caída sobre a mesa.

Pegou a foto, vacilando ao tocar o porta-retratos. Finalmente olhou e viu a si mesma e seu marido, sorrindo felizes em uma de suas viagens. Colocou a foto no lugar, com um sentimento de vergonha, como se o olhar de Draco na foto pudesse realmente vê-la e a estivesse condenando por seu comportamento recente.

Saiu do escritório desnorteada, sentindo um peso enorme sobre si.

Sentada à mesa da sala de jantar, Astoria aproveitava a solidão para tentar pensar. Mal conseguia tocar na comida. Estava agradecida por Narcisa não estar em casa.

Tudo o que acontecera naquele fim de tarde redemoinhava em sua cabeça. O beijo de Zabini, seu toque, seu cheiro. Ela experimentava sensações ambíguas. Sabia que estava errada, mas não conseguia fingir que não tinha gostado. As palavras dele, "divirta-se criando desculpas para fingir para você mesma que não gostou do que aconteceu aqui", rondavam sua mente, deixando-a enjoada.

Finalmente desistiu de comer. Foi até o quarto e pegou seu álbum de fotos do casamento. Observou-se linda nas fotos, com um Draco satisfeito e confiante, mas ambos estranhos um para o outro. Sem carinho. Sem amor.

Como se tornaram o que eram agora?

E por que ela estava arriscando aquele casamento, se agora eles eram felizes?

A dor da culpa a acossou e ela começou a chorar. Sentia-se suja e baixa por ter traído o marido, mesmo sem ter premeditado aquilo. Não conseguia pensar naquilo como um deslize: condenava-se como se tivesse praticado um crime.

Então, num acesso de desespero, saiu do quarto e foi até uma das salas da mansão ― a mesma onde Draco fora beber após a conturbada festa na casa dos Goyle. Olhou rapidamente e viu uma garrafa de firewhisky ainda lacrada. "Vai ter de servir", pensou.

Pegou a garrafa e um copo e subiu para o quarto. Sentou-se no chão, arrancou o lacre da garrafa e encheu o copo. Tomou um gole. A bebida desceu rasgando sua garganta, parecia que tinham lhe socado o queixo. Mesmo assim ela insistiu e tomou o segundo gole. Tossiu várias vezes, pois não estava acostumada a bebidas fortes. Tomou o terceiro, já ofegante. E assim persistiu até o último gole, até o próximo copo, e mais outro, e outros mais, até que suas mãos ficaram fracas demais para sustentar o copo, sua mente desligou e seu corpo tombou inerte ao lado da cama.

-Bom dia, mãe.

-Bom dia, meu filho. Dando uma pausa no trabalho? Que bom! Estava com saudades.

-Eu também, mãe. Está tudo em ordem?

-Sim, querido. Está tudo bem, não se preocupe.

-Onde está Astoria? Não falo com ela desde anteontem. Tivemos um desentendimento bobo, mas parece que ela está me evitando e não quero seguir com isso. Pode chamá-la para mim?

Narcisa, constrangida, informou:

-Ela está dormindo.

-Dormindo? São quatro horas da tarde! Quer dizer, aí deve ser uma hora, mas de qualquer modo, por que diabos ela ainda está dormindo?

-Bem, Draco. Ah, não adianta esconder, um dia você vai saber mesmo.

-O que houve, mãe? Fale logo, está me deixando nervoso!

-Calma, Draco. É só que ela tomou um porre.

-Ela o quê? ― Ele perguntou perplexo.

-É isso mesmo. Não sei o que deu nela, mas quando cheguei à noite a encontrei caída no quarto, completamente bêbada. Tive que chamar dois empregados para me ajudarem a coloca-la na cama. E pelo que vi, não bebeu pouco. Havia uma garrafa de firewhisky abaixo da metade, no quarto. O lacre estava ao lado de Astoria, ou seja, ela bebeu mais de meia garrafa sozinha.

Draco pareceu furioso.

-Veremos se foi sozinha mesmo! Chame alguma empregada que estivesse em casa ontem!

Poucos minutos depois, Mary chegou e Draco a interrogou sem rodeios:

-Você viu Zabini aí ontem?

-Sim senhor.

-Astoria e ele ficaram muito tempo juntos?

-Não senhor. Ele ficou trabalhando no escritório e ela na ourivesaria o dia todo. A senhora Astoria somente retornou para o jantar, e o senhor Zabini não a acompanhou.

-Você o viu subir para o quarto?

-Não senhor. O senhor Zabini não se dirigiu ao andar superior. Ficou apenas no escritório.

-Está bem. Pode ir.

Draco suspirou, zangado.

-O que houve, filho? E o que é que tem Blaise?

-Espero que nada, mamãe, mas Astoria terá que se explicar sobre esta bebedeira. Diga a ela para me chamar assim que acordar, não importa a hora.

-Tudo bem, filho.

Draco seguiu conversando com a mãe, explicando sobre a presença de Blaise na casa e extremamente ansioso por ouvir a explicação que Astoria iria lhe dar.

Horas mais tarde Astoria acordou.

Passou vários minutos deitada, gemendo de dor, com a cabeça explodindo e um gosto horroroso na boca. Estava nocauteada pela ressaca.

Cambaleou até o banheiro e lavou o rosto. Viu-se no espelho e lamentou sua aparência horrorosa. Então, uma sensação estranha se agitou em seu estômago e ela teve que correr para atirar ao sanitário o responsável por aquele seu estado lamentável.

Após escovar os dentes, vagou de volta para a cama, mas antes de se deitar viu um bilhete colado no espelho da penteadeira.

"Draco quer falar com você urgentemente. Está muito preocupado com seu estado. Chame-o pelo espelho assim que acordar, não importa a hora, e me chame se precisar de alguma coisa. Narcisa."

Astoria gemeu, desanimada. Draco certamente já tinha sido informado de seu porre e queria explicações. As lembranças da noite anterior vieram à sua mente e ela suspirou, infeliz.

Sabia que adiar a conversa com o marido só faria as coisas ficarem piores. Assim, voltou ao banheiro e penteou-se, lavou o rosto novamente e tentou ficar com um ar saudável. Pensou até em apelar para a maquiagem a fim de disfarçar as olheiras e todo o resto, mas não teve forças para isso.

Colocou o espelho sobre a penteadeira, sentou-se e chamou, com voz cansada: "Draco.".

O rosto dele surgiu em uma fração de segundo, como se ele estivesse parado há horas ali, à espera de ser chamado.

-Oi. ― Ela disse.

-Mal posso esperar por uma explicação. ― Ele respondeu friamente.

Ela suspirou irritada.

-Eu bebi, ora bolas!

-Você bebeu? ― Ele retrucou indignado e se aproximando do espelho, o que fez com que seu rosto parecesse maior. ― Isto é minimizar bem as coisas, não? Você tomou um porre! Que ideia foi essa? Ficou maluca?

-Não grite, por favor! Eu apenas exagerei um pouco. Estava chateada e queria algo para esvaziar a mente.

-E em vez da mente, esvaziou uma garrafa. Francamente, Astoria!

-Se o incomoda tanto, compro outra igual, querido.

-Ao inferno com a garrafa! ― Ele gritou, fazendo com que ela se encolhesse por causa da dor na cabeça. ― Estou preocupado com você! Olhe só seu estado! Veja essas olheiras! Parece até que já morreu!

"Estou preocupado com você!". Apesar da conversa difícil e do seu mal estar, Astoria não pôde deixar de apreciar aquela frase. Sorrindo debilmente, ela respondeu:

-Estou bem, Draco. Juro. A cabeça dói, mas vai passar logo mais.

Draco a encarou por alguns segundos, parecendo em dúvida. Então, fez a pergunta que ela não queria ouvir:

-Zabini tem algo a ver com isso?

Seu coração se apertou. Ela não o encarou ao responder e torceu para ele não notar seu rubor ao pronunciar aquela mentira:

-Claro que não. Por que teria?

-Tem certeza disso? ― Draco indagou e Astoria surpreendeu-se ao notar insegurança em sua voz.

-Sim. ― Ela disse, sentindo-se ainda pior, mas sua próxima afirmação veio repleta de sinceridade: - Tem a ver com você. Com a saudade que estou sentindo e não consigo mais suportar.

Ao ouvir isso, ele contraiu os lábios e olhou para a esposa com um olhar cheio de afeição.

-Se você fizesse ideia da falta que me faz, Astoria...

Ela voltou a sorrir com tristeza, mas não disse mais nada.

-Vá descansar. ― Draco sugeriu carinhosamente. ― Tome um chá, durma, enfim, tente se recuperar logo. Depois conversamos.

Astoria assentiu com a cabeça baixa, depois olhou para o espelho e disse:

-Perdoe-me por preocupa-lo. Eu... Eu te amo. Muito.

E desfez a conexão com o espelho do marido.

Do outro lado do oceano, Draco viu a imagem da esposa desaparecer. Apoiou os cotovelos na mesa, pôs as mãos na cabeça, segurando as têmporas, e suspirou pensativo.

Cansado, recostou-se na cadeira, pensando na esposa. "Ah, Astoria. O que está havendo? Quando eu digo que preciso cuidar de você, minha menina... Olha só o que aprontou só porque estou longe!"

Então, de repente, soltou uma risada. "Astoria", murmurou, olhando para uma foto dela sobre a mesa e surpreendendo-se ao pensar que colocá-la ali fora um gesto tão automático que ele nem se lembrava do momento em que tinha feito. Sorriu olhando o rosto dela, achando graça, embora preocupado, no fato de ela ter tomado um porre. Pensou nela como aquela quase menina com quem se casara, delicada e indefesa. Não tinha como não ver algum charme.

Era interessante pensar naquela Astoria antiga, embora sua esposa ainda fosse jovem e viçosa. Uma série de lembranças começou a surgir em sua mente: A primeira vez que a viu e a atração que sentiu por ela; O modo como ela o repeliu e sua clara insatisfação com a insistência dos pais para que se casassem; O conformismo dela ao aceitar tornar-se sua esposa; O casamento.

Agora que parara para pensar, via como as coisas mudaram entre os dois. No dia do casamento eram dois estranhos que mal haviam se beijado. Então, ele a desvirginou e ambos descobriram que se entendiam muito bem no sexo. Ele foi um bom professor e ela se tornou uma amante eficaz. E a partir disto as coisas foram se acertando e os sentimentos mudaram, e agora ele percebia que ela lhe fazia muita falta. E não era só por causa do sexo. Sentia falta do cheiro dela e do som de seu sorriso; do toque delicado de sua mão ao lhe fazer carinho; do chá que ela lhe levava quando ele trabalhava até tarde; dos seios dela roçando em suas costas quando ela dormia abraçando-o; do encaixe perfeito e sensual de suas bocas e a movimentação frenética de suas línguas se querendo e se buscando; da doçura dela ao se encaixar em seus braços, como se pedisse proteção; da sua entrega sem pudores; de seu clímax escandaloso, seguido por uma espécie de ronronar, que o fazia se sentir másculo e viril; de seus olhos azuis profundos e reveladores. Eram tantas coisas que ele se perguntava como podia tê-la deixado tão longe.

E de repente, ele se perguntou: quando foi que mudou?

Em que momento seus ciúmes, que eram ocasionados por seus brios de macho que não quer ser passado para trás por um igual passaram a ser uma preocupação real com uma pessoa de quem ele sentiria falta, caso acontecesse algo de ruim? Quando ele passou de alguém que queria possui-la para alguém que desejava protege-la?

E que diabos estava acontecendo para ele se lembrar dela assim, com tanto carinho e tantos detalhes? Por que agora ele sentia falta deles, até do estresse exagerado e dramático dela nos dias da TPM?

Por que agora, que estava pensando nela, sua ausência doía tanto?

Pensando em Astoria, percebeu que sua vida antes dela tinha sido uma ilusão. Fora criado para ser sempre superior e mais importante. Chegou a Hogwarts achando que seria o melhor dos melhores, mas logo foi ofuscado por um certo colega e viu que era uma pessoa comum. Achava que seu pai era poderoso e que ninguém poderia detê-lo, até que o viu ser humilhado publicamente. Achava que o dinheiro poderia comprar tudo, até que precisou arriscar a própria vida para salvar seus pais. Então, casou-se com uma mulher escolhida a dedo, e não esperava muita coisa além do que uma esposa tem a obrigação de fazer, mas ela o surpreendeu. Não precisava fingir sentimentos para ele, pois sabiam muito bem em que termos haviam se casado, porém ela se apaixonou. Ela o amou, com todas as suas qualidades e também defeitos. Ela o aceitou exatamente como ele era. Astoria era uma ilha de verdade em sua vida de quimeras. Uma lufada de ar puro em uma vida opaca e sufocante.

Ele simplesmente precisava dela. Não porque ela tinha assinado um papel dizendo que era sua esposa. Apenas porque ele apreciava que ela estivesse lá.

Quando foi que estar com ela deixou de ser uma formalidade e passou a ser uma necessidade?

De repente uma angústia enorme o acossou. Queria encarar os olhos azuis dela, aspirar seu cheiro quando seus lábios estivessem se tocando um segundo antes do beijo, fazer amor até não agüentar mais.

Então ele percebeu.

Assombrado, notou a diferença. Se agora se preocupava em proteger Astoria, se agora sentia falta dela e dos pequeninos detalhes de sua rotina, se sua ausência se tornara mais que um transtorno, uma enorme dor, é porque o que ele agora sentia por ela era...

Antes que o pensamento se formasse, aprumou-se na cadeira. Tinha acabado de tomar uma decisão. Estava ponto para mais uma conexão através do espelho de dois sentidos.

-Zabini!

Seu primeiro chamado não obteve resposta.

Sentindo uma ansiedade crescente, chamou com mais força: "Zabini!".

Novamente, ficou sem resposta. Então, sem cerimônias, gritou:

-BLAISE ZABINI!

Após alguns segundos, o homem apareceu. Parecia agitado.

-Espero que tenha bons motivos para me chamar. Tem ideia de que horas são?

-Dane-se a hora! O que vou falar é rápido.

-Assim espero. Você me chamou numa péssima hora!

Draco lhe lançou um olhar sarcástico.

-Lamento se interrompi alguma de suas demonstrações de virilidade, mas serei breve. Quero lhe comunicar que estou embarcando de volta amanhã.

-O QUÊ? ― Blaise deu um berro que assustou até mesmo Draco.

-É isso mesmo. Cansei de ficar aqui. Amanhã irei embora.

-Você não pode! Ficou doido ou o quê?

-Não, não fiquei doido. Só que não estou mais a fim de ficar sozinho aqui. Astoria está sozinha e fazendo bobagem em casa, estou preocupado com ela, então, já que não pode vir, eu volto.

Blaise engoliu em seco, pensando que Astoria contara ao marido sobre os acontecimentos que o envolviam. Tentando disfarçar o nervosismo, indagou:

-O que houve com ela?

Draco respondeu, irritado e impaciente:

-Andou bebendo, tomou um porre, está pirando! Nunca fez essas coisas comigo por perto. Preciso voltar para casa, para cuidar dela.

Blaise o encarou.

-Draco, você não pode abandonar os negócios no pé em que estão simplesmente porque sua esposa tomou um porre. Seja sensato, homem! Está tudo indo bem, estamos resolvendo, é só questão de esperar um pouco mais!

-Zabini, não estou querendo conselhos e nem pedindo permissão. Estou comunicando. Minha decisão não está aberta a discussões. Passe bem.

A conexão entre os espelhos foi desfeita.

Dois segundos depois, o espelho de Draco vibrou. Ele o olhou zangado e relutou em responder, mas achou melhor fazer isso.

-O que é, Zabini? Já disse tudo o que tinha a dizer, o que mais você quer?

-Vamos tentar resolver isso, cara! Não dá pra largar os negócios assim!

Draco sibilou:

-Você disse que ajudaria a trazer Astoria para cá. Já são quase cinco meses e nada! Estou de saco cheio!

-Estou tentando, mas não posso burlar o Ministério da Magia, posso? ― Explodiu Blaise.

-Então não me enche, Zabini!

-Draco, por favor, estou suplicando: não faça besteira. Amanhã vou cuidar disso, farei tudo o que puder para mandar Astoria ao seu encontro.

Draco estreitou os olhos:

-Espero que esteja falando sério, Blaise. De qualquer modo, lhe darei três dias. Nada além disso. Se em três dias minha mulher não desembarcar aqui, retornarei sem comunicar mais nada.

-Mas Draco...

-É isso. Passe bem.

Draco defez novamente a conexão, deixando Zabini chocado, com uma expressão incrédula no rosto.

-Senhora?

-Sim, Mary?

-O senhor Zabini está na sala e deseja vê-la.

Astoria desviou os olhos da peça de ouro que estava polindo e perguntou:

-Tem certeza? Talvez ele queira apenas usar o escritório. Leve-o até lá.

-Não, senhora. Ele quer vê-la. Parece muito nervoso.

Astoria, relutante, deixou a ourivesaria e foi ao encontro de Blaise. Ao vê-lo, percebeu que ele realmente estava muito agitado. ― Como vai? ― Indagou, polidamente.

-Podemos conversar em particular?

Astoria assentiu e conduziu-o a uma sala de estar onde poderiam conversar com privacidade. Logo que ela fechou a porta, ele indagou ferozmente:

-O que foi que você contou a ele?

-Sobre o quê? ― Ela indagou, de um modo que dava a entender que ela achava que ele tinha enlouquecido.

-Você tem que ter contado algo, para ele ter uma ideia dessas! - Zabini afirmou, acusador.

-Você pode me explicar o que está acontecendo? ― Astoria pediu, irritada.

-Teu marido ficou doido e disse que vai largar tudo na Argentina e voltar para cá! Por sua causa!

Um sorriso enorme se abriu no rosto dela:

-É mesmo?

-Sim. Só que se ele fizer isso vai ferrar com a empresa, com a minha vida, com a vida dele... Vai arrebentar com tudo!

Astoria continuou sorrindo e deu uma mordidinha no lábio, marota, sentindo-se feliz ao saber que Draco sentia sua falta. Blaise, nervoso, disse:

-Sei que é lisonjeiro ouvir isso, mas Draco vai fazer uma grande bobagem se voltar agora. Enfim, preciso de seus documentos. Tenho que arrumar tudo logo, tentar uma liberação para você viajar, passagem, tudo. Vá fazendo as malas e avisando à sua sogra.

Astoria assentiu e foi correndo ao escritório buscar os documentos, que entregou a um Blaise contrariado. Ele comentou sobre o que faria para conseguir resolver tudo a tempo, demonstrando preocupação. Ainda assim, ainda teve ânimo para continuar com seu joguinho:

-Não pense que vai se livrar de mim por causa disso. Ainda não desisti de ter você.

Astoria riu, insolente:

-Vou lembrar disso, Blaise. Lá na Argentina, nos braços do meu marido.

Ele amarrou a cara e saiu. Astoria, feliz da vida, correu escada acima, e sua mente já ia criando uma lista do que colocar em suas malas.
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