Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
16 - Realidade

Encontrar aqueles objetos foi um choque tão grande que deixou Astoria paralisada. Ficou por vários minutos ali, agachada com as mãos dentro da gaveta, ainda segurando ― os. Tombou para a frente e apoiou-se nos joelhos, atordoada com o que via. E não eram poucos. Devia haver ao menos uns sete ali. O que significava que ele pretendia usar muitas vezes, e sem dúvida não seria com ela.

Toda a felicidade que ela sentira por estar perto de Draco, a satisfação que sentia pela noite de amor tórrida que tiveram, tudo se esvaiu como se alguém tivesse pressionado um botão de desligar. Todos aqueles sentimentos foram substituídos por uma mescla de constrangimento e consciência da própria ingenuidade. Estava com vergonha de si mesma.

Ela mal se moveu ao ouvir os passos dele se aproximando.

-O que houve, meu bem? Não conseguiu achar? ― Ele foi dizendo ao entrar no quarto embrulhado em um roupão, e enquanto isso ela voltava os olhos em direção a ele, sem nada dizer.

Draco imediatamente percebeu o que ela tinha em mãos. A pouca cor que tinha no rosto desapareceu e ele saltou em direção a Astoria, arrancando as camisinhas da mão dela. Sua ansiedade foi tamanha que uma delas caiu no chão.

-O que está fazendo? ― Ele disse rispidamente, atirando as camisinhas de volta à gaveta e fechando-a com força.

Astoria não sabia o que dizer. O que perguntar, se estava óbvio o que tinha acontecido?

Um silêncio tenso se prolongou. Astoria encarava Draco com um olhar cheio de mágoa. Incomodado, Draco disse um tanto constrangido:

-Isso não tem nada a ver com você, está bem?

Aquelas palavras tiraram Astoria do silêncio.

-Explique-me como descobrir que meu marido transou com outra mulher pode não ter a ver comigo.

Vendo que de nada adiantaria negar, Draco inspirou profundamente.

-Eu não estava mais aguentando, Astoria. Me segurei enquanto pude, mas chegou uma hora em que eu tive que ceder. Foi mais forte que eu. ― Ele disse com seriedade.

Astoria desviou o olhar, parando de encará-lo.

-E esse tempo todo eu estava pensando que você sentia a minha falta. Que estava aqui pensando em mim, contando as horas para me ver outra vez. Mas, pelo visto, você se arranjou muito bem, não é?

Ela desabou no chão, sentando-se e encolhendo as pernas. Escondeu o rosto nos joelhos e levando as mãos à cabeça disse, com a voz tomada pelo desgosto:

-Por Merlin, como sou estúpida!

Draco aproximou-se dela e abaixou-se tentando abraçá-la:

-Astoria, por favor...

-Tire a mão de mim! ― Ela disse com angústia, afastando-o com os braços.

Draco se afastou lançando-lhe um olhar zangado.

-Para que esse drama todo? Não é para tanto.

Ela o olhou incrédula:

-Não é para tanto? Você me traiu!

Draco retrucou espantado:

-Astoria, por favor, isso não foi traição.

Ela fechou a cara.

-Estamos separados há meses, tive que enfrentar Zabini para trazer você para cá e você vai se aborrecer por causa de uma besteira? Vai querer brigar, depois de tudo o que eu fiz?

Astoria retrucou, sarcástica:

-Perdão, señor.

Draco, irritado, rebateu:

-Não seja tola, Astoria. Foi uma coisa sem importância, para aliviar a tensão. Nada mais.

Com uma expressão irônica ela disse:

-Isso é tudo o que tem em sua defesa?

-É claro! Não é como se eu estivesse tendo um caso, pensando em me separar de você ou formando outra família. Foi só sexo!

-Ah, foi só sexo! Que pena eu não ter pensado nisso. Podia ter aproveitado a oportunidade e também ter transado com alguém. ― Ela disse, ácida. E ao dizer isso, lembrou-se de Blaise Zabini.

-Não diga bobagens! É bem diferente.

-O que é diferente? ― Ela retrucou ferozmente.

-Eu sou homem! Eu preciso de sexo! Você é mulher, e mulher aguenta ficar sem.

Astoria balançou a cabeça bem levemente em sinal negativo, não acreditando no que ouvia.

-Não sabia que ter um pau lhe dava o direito de ser infiel. ― Disparou.

-Não diga grosserias! ― Draco exclamou, puxando-a pelo braço e encarando-a.

Eles ficaram se olhando, os dois cheios de raiva. Astoria sibilou: -Me larga! Está me machucando.

Ele a soltou e ela foi para a janela massageando o braço que ele tinha segurado. Ficou olhando para fora, evitando que ele visse as lágrimas que ela não conseguia mais conter.

-Astoria, ouça...

-Cale-se, Draco. Nada do que você disser vai fazer com que eu me sinta melhor.

Ele ergueu as sobrancelhas, suspirou e desistiu de tentar fazê-la ouvir. Pegou as roupas que ela separara e começou a se vestir.

Após alguns minutos Astoria saiu da janela e sentou-se na cama. Seu rosto estava vermelho, os olhos e o nariz inchados por causa das lágrimas.

Draco se vestira e estava colocando uma gravata. Olhou esperançoso para a esposa, imaginando que ela iria ajudá-lo a ajustar o nó, como costumava fazer. Ela, no entanto, o ignorou.

Mais alguns minutos se passaram. Repentinamente Astoria indagou:

-Quem foi?

-Como?

-Quem foi? ― Ela repetiu, rancorosa. ― A vagabunda com quem você transou.

-Astoria, por favor...

-Foi sua secretária? ― Ela prosseguiu, cruel. ― Você disse que tinha trabalhos para terminar e aproveitou para seduzi-la? Ou será que ela anda esfregando o decote na sua cara desde que você chegou?

-Astoria, pare com isso. ― Ele pediu, e seu tom de voz era um alerta.

-Talvez alguma funcionária mais modesta. ― Ela continuou, tomada pela raiva. ― Uma faxineira, uma copeira... Talvez uma recepcionista vadia que tenha se disposto a satisfazer suas necessidades? ― Pronunciou a última palavra com um muxoxo, o que irritou Draco ainda mais. Incontrolável, ela prosseguiu: - Ah, agora entendi por que aquilo estava no banheiro. Você comeu o rabo dela na pia também?

-Não diga vulgaridades! ― Draco exclamou. Mas Astoria foi além:

-Oh, ele se choca quando a esposa fala grosserias, mas não tem pudores em comer as funcionárias!

-Foi uma prostituta, porra! ― Draco revelou como se vomitasse as palavras.

Perplexa, Astoria murmurou: "O que?".

-Isso mesmo que você ouviu. Eu transei com prostitutas. Pronto! Você não queria saber? Agora já sabe. Eu paguei, eu transei, acabou! Foi só sexo! ― Ele disse, frisando bem as três últimas palavras.

Astoria baixou o olhar, envergonhada.

-Ah. Agora sim me sinto melhor, Draco. Realmente estou honrada em saber que fui trocada por uma vadia de aluguel.

-Por favor, me ouça...

-Estou impressionada em saber que você me substituiu facilmente por uma piranha que custou o que? Dois pesos? Ou você pagou em libras mesmo?

-Astoria, estou avisando, pare com isso. ― Sua voz soou perigosa.

-Pensando bem, considerando que eu só lhe sirvo para sexo e que você me sustenta, acho que sou a puta mais cara que você já comeu!

-Já chega! ― Draco gritou, e mais uma vez agarrou Astoria, desta vez pelos dois braços, fazendo-a levantar da cama. Segurando-a com muita força ele disse:

-Pare com isso! Estou suplicando! Pare!

Os lábios dela tremeram. Seus olhos estavam arregalados e ela arquejava. Havia muito tempo que seu marido não ficava tão violento, e vê-lo naquele estado lhe trouxe lembranças. Memórias de um dia que ela queria apagar de sua mente, mas naquele momento ressurgiram com toda a força, apavorando-a.

Ao ver o pânico estampado no rosto de Astoria, Draco a soltou. Ela voltou para a janela, olhando para fora com os braços cruzados. "Desculpe", ele disse. "Você quase me fez perder a cabeça".

-Deixe-me sozinha, Draco.

-Fique calma e me deixe explicar, por favor".

Olhando-o com uma expressão terrivelmente magoada ela murmurou:

-Se eu tivesse feito o mesmo, não teria chance de me explicar.

Draco, percebendo que a luta estava perdida, afastou-se dela. Diante do espelho, terminava de se arrumar, contrariado por aquela situação.

Astoria queria partir para cima de Draco. Queria bater nele, soca-lo em todas as partes que conseguisse alcançar, gritar que ele era um traidor nojento. Mas não fez nada disso, porque estava refletindo sobre suas próprias palavras.

Se ela tivesse feito o mesmo. Se tivesse traído. Ela pensava e a imagem de Blaise Zabini lhe vinha incessantemente à cabeça.

Não tinha transado com Blaise, mas tinha trocado beijos e carícias com ele. Não foi premeditado, mas aconteceu - e ela não podia mentir para si mesma: sabia que tinha gostado. Claro que beijar e dar uns amassos era bem menos grave do que uma transa, pensava ela. Mas, se por um lado ela e Blaise não tinham ido para a cama, por outro ele era um dos melhores amigos do seu marido, o que transformava sua traição em uma deslealdade ainda maior. Que moral ela tinha para cobrar fidelidade do marido se, enquanto ele transava com prostitutas, ela se atracava com um amigo dele?

Ao fazer este questionamento, sua consciência foi implacável ao lhe dar o veredicto: "Você foi tão vadia quanto ele e não tem o direito de reclamar de nada".

Arrasada pela culpa, Astoria voltou a chorar, com uma mão apoiando o cotovelo oposto e a outra fechada no rosto, sobre o nariz. Desta vez as lágrimas vieram com tanta força que ela soluçava descontrolada, seu corpo sacudindo em meio à angústia.

Draco foi correndo em direção a ela e a abraçou, mesmo diante da resistência dela em aceitá-lo. Ela não o abraçou, ficou com os braços encolhidos entre ela e Draco, sem conseguir controlar o choro enquanto estava nos braços dele.

Sem ter a menor ideia do que realmente desencadeara aquela crise de choro, Draco tentava consolá-la:

-Querida, me desculpe! Olha, eu sei que te magoei muito, mas por favor, não fique assim! Eu juro, juro pela minha vida que fiz o que fiz apenas por instinto, e não por sentimento. Ninguém é capaz de mudar o que sinto por você, Astoria. Você é a única mulher que eu a...

Astoria ansiava por ouvir uma declaração de amor do marido havia anos. Aquele momento, porém, em que ele a consolava sem saber que ela chorava por ter falhado com sua lealdade a ele, era o último momento em que ela iria querer que isto acontecesse. Assim, saiu dos braços dele abruptamente, dizendo: "Me deixa! Me deixa!"

Sem saber o que mais poderia dizer para acabar com aquela tensão, Draco disse um tanto ingenuamente:

-Não quer vir comigo? Podemos conversar direito, aparar as arestas... Não quero brigar, Astoria.

-Não. ― Ela respondeu, voltando para a cama. Deitou-se, cobriu-se com um lençol e parou de ver o marido. ― Vá trabalhar. Preciso descansar. Quem sabe depois de dormir um pouco eu descubra qual o sentido de ter vindo parar aqui. ― Ela murmurou, chateada.

Ela sentiu a mão de Draco fazendo-lhe um leve carinho no rosto por sobre o lençol. Depois ouviu o som da porta do quarto se fechando.

Astoria ficou por vários minutos ali, imóvel sob o lençol. Por fim, explodiu em lágrimas outra vez, até que o cansaço acumulado nas últimas horas por fim a venceu.

Draco estava sentado à sua mesa, envolto em números e problemas. A imagem de Astoria chorosa e magoada não lhe saía da mente. Ele a chamou pelo espelho duas vezes, mas ela não respondeu ― provavelmente estava dormindo, pensou ele.

Sua secretária entrou na sala na primeira oportunidade que teve de estarem a sós. Era uma morena alta, esbelta, dona de olhos castanhos penetrantes e sensual mesmo com as discretas roupas que usava.

Entregou a ele alguns papéis, fazendo observações a respeito dos mesmos. Ao finalizar, comentou:

-É verdade que sua esposa chegou ontem da Inglaterra?

-Sim. ― Ele respondeu distraidamente.

-Que bom. ― Comentou ela. ― Isso significa que nós dois...

-Isso significa que "nós dois" acabou. Aliás, fui bem claro com você desde o início. Não tínhamos nenhum compromisso, certo?

-Claro. ― Ela respondeu com amargura. ― Não estou questionando nada. Eu só queria ter certeza.

-Ótimo.

-Não o incomodarei mais com assuntos extraprofissionais.

-Excelente.

-Com licença, senhor.

Draco assentiu e ela saiu. Ele lançou um olhar para a porta e ergueu as sobrancelhas, satisfeito. Menos um problema com que se preocupar.

Horas mais tarde, Draco estava distraído quando entrou uma jovem em sua sala, trazendo-lhe uma xícara de chá. Ele não prestou a menor atenção nela, portanto não viu a expressão zangada em seu rosto. Ela pôs a xícara sobre a mesa e ele, que analisava documentos, não demonstrou ter notado sua presença.

A moça, de baixa estatura mas com curvas que o uniforme de copeira não ocultava e com cabelos castanhos escuros presos em uma longa trança, não conseguiu se conter. Sem preâmbulos disse:

-¿Es verdad lo que dicen?

Draco a olhou espantado, e logo depois uma expressão de desdém ocupou o seu rosto.

-No lo sé. No estoy interesado en los chismes de los empleados.

-Dicen que ha venido tu mujer desde Inglaterra.

-Sí. Es verdad.

-Pero, si volvió ella, ¿cómo quedamos nosotros?

Draco riu debochando.

-¿Nosotros? No hay nosotros. Nunca ha habido.

-¿Pero cómo no hay? Tú me has prometido?

-No te he prometido nada. Lo que hubo entre nosotros fue solamente una noche, nada más. O ¿crees que te quiero por esposa?

Os olhos da moça se encheram de lágrimas.

-¡No me puedes tratar así, como si fuera una puta!

-Por supuesto que no. Puedo tratarte como mi empleada, que es lo que eres.

Uma expressão chocada tomou conta do rosto da moça. Sem lhe dar atenção, Draco prosseguiu:

-No me molestes más. Olvídate lo que pasó, porque no tiene importancia. No para mí. Si has pensado algo diferente, es tuyo el problema.

Os lábios da moça tremeram e uma lágrima rolou por seu rosto. Draco, incomodado com a presença dela, disse de modo imperativo:

-Váyase. Estoy ocupado.

Ela saiu da sala apertando a bandeja contra o peito, desolada e envergonhada. Draco tomou o chá, perguntando-se como diabos tinha chegado a tal nível de desespero a ponto de se envolver com uma mulher daquelas, tão simples, tão abaixo dele. Mas, apesar disso, estava sentindo-se mais relaxado ao expurgar aquela mulherzinha simplória de sua vida como se chutasse o lixo de seu caminho.

Astoria se mexeu preguiçosamente na cama. Abriu os olhos, percebendo que a noite estava caindo sobre Buenos Aires.

Sentou-se na cama, sentindo-se triste ao lembrar do ocorrido pela manhã. Ficou alguns segundos ali pensando, uma pontinha de culpa corroendo-a aos poucos. Sentiu um arrepio que não sabia definir se era de nervosismo ou do frio que estava chegando com a noite.

Levantou-se, esticou o corpo se espreguiçando e foi ao banheiro. Ao abrir a porta do quarto sentiu um cheiro diferente, o inconfundível cheiro de comida gostosa. Ouviu o barulho de talheres encostando em pratos. "Draco já chegou", pensou ela, imaginando que ele estava jantando na sala.

Foi ao banheiro, lavou o rosto e arrumou um pouco os cabelos. Foi à sala falar com o marido, mesmo sem saber o que lhe dizer.

Ao chegar ao aposento, surpreendeu-se ao vê-lo pondo a mesa para duas pessoas: os dois lugares já estavam arrumados, com direito a toalha de mesa e um vaso grande e vazio que ela não entendeu o que estava fazendo ali. Entre os dois lugares havia uma bandeja com carne assada e batatas que cheiravam muito bem.

Ao perceber a presença da esposa, Draco parou de arrumar a mesa, olhando para ela com surpresa. Parecendo tenso e afobado, começou a falar, inseguro:

-Oi. Você está bem?

-Sim. ―Ela respondeu com simplicidade e sem emoção.

Ele aproximou-se dela, parando a uma curta distância.

-Como você não quis ir comigo e eu não sabia se você tinha comido alguma coisa, bem... Eu trouxe jantar para nós dois. ― Ele parecia sem graça ao falar, como se ela pudesse explodir a qualquer momento e sair chutando tudo.

Astoria não disse nada, mas seus lábios se curvaram bem levemente, num sorriso quase imperceptível.

Draco, ainda inseguro, prosseguiu:

-Sei que não há nada mais clichê do que dar flores a uma mulher depois de cometer um erro com ela. Porém, não consegui pensar em outra coisa para lhe pedir desculpas.

E pegou um enorme buquê de rosas perfeitas e muito perfumadas que explicavam o jarro em cima da mesa.

Segurando o buquê, ele olhou bem nos olhos dela, e disse com tanta sinceridade que ela sentiu o coração se apertar:

-Te peço perdão por tudo, Astoria. Pelo que você descobriu, pela nossa briga, por tê-la magoado. Sei que fui um imbecil, mas a única coisa que me resta é pedir desculpas. Se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo diferente só para não ver essa tristeza no seu olhar... Mas como não posso, te peço perdão e peço também que me dê outra chance de te fazer feliz. Esperei tanto para tê-la aqui, Astoria. Sei que estraguei tudo, mas se você me der uma chance pra consertar...

E entregou a ela o buquê, com uma expressão ansiosa no rosto.

Astoria recebeu as flores e esboçou um sorriso. Tocou algumas pétalas e aspirou o aroma, impressionada com a beleza daquelas rosas. Colocou-as no vaso, evitando assim encarar o marido, para que ele não visse que ela estava emocionada.

Demorou o dobro do tempo necessário colocando as flores no vaso. Por fim, virou-se e viu que Draco ainda a observava ansiosamente. Então, sem dizer nada, foi até ele apressadamente e o abraçou.

Draco suspirou, sentindo um alívio inenarrável ao perceber que tinha conseguido tocá-la. Seu corpo relaxou, a tensão sumiu de seu rosto e ele a abraçou com mais força. Ela, por sua vez, afundou o rosto no peito dele, apertando-o contra si.

-Tenho raiva de mim por te amar tanto. ― Ela disse, com a voz abafada pelo abraço. Draco sorriu:

-E eu tenho raiva de mim por ser tão burro. ― Ele disse com ternura e acariciou o rosto dela.

Ela também riu.

-Então. Flores, comida e tudo mais. É uma receita infalível para conseguir o que queria, não é?

-Não. Eu ainda não consegui exatamente o que eu queria.

-E o que é que você queria? ― Ela indagou, achando que ele a arrastaria para a cama, o que ela não estava nem um pouco a fim de fazer. Mas em vez disso, ele a encarou com intensidade e disse:

-Me dá um beijo dessa sua boca linda, que eu não pensei em outra coisa o dia todo.

Astoria lançou - lhe um sorriso maroto, segurou o queixo dele e o puxou para si. Eles trocaram um beijo suave, delicado, experimentando a harmonia que voltava lentamente a existir entre eles.

Finalmente, Draco puxou uma cadeira para Astoria e sentou-se em frente a ela. Serviu a comida saborosa em seus pratos e abriu uma garrafa de vinho. Enquanto enchia duas taças, Astoria comentou:

-Você precisa me dar algum tempo para digerir isso tudo.

-Tempo? ― Ele indagou distraidamente.

-Sim. Não tenho como esquecer isso de um dia para o outro. Vai levar algum tempo para eu pensar em tudo como um mero deslize.

Draco a encarou com um olhar inseguro, mas tentou parecer seguro ao afirmar:

-Tudo bem, querida. O tempo que precisar.

Comeram em silêncio, ela tentando absorver tudo o que tinha acontecido, ele tentando aceitar o que ela tinha acabado de lhe dizer. Sabia que logo conseguiria dobrá-la, mas também tinha agora uma certeza: Astoria não engoliria tão facilmente o que ele tinha feito.

Astoria decidiu castigar Draco, deixando-o uma semana sem sexo. Não informou isso a ele, apenas demonstrou desânimo todas as vezes em que ele a procurou. Ele ficou chateado, mas sabendo que era o culpado por isso, a respeitou. Astoria, por sua vez, tinha bem claro em sua mente que seria só uma semana, pois o castigo era para Draco, mas também lhe custava muito esforço.

No decorrer daquela semana, Draco a levou para conhecer a empresa. Apresentou-a aos funcionários mais importantes e à sua secretária que, na ausência do casal, não poupou críticas à jovem esposa de seu chefe. "Muy delgada", "demasiado blanca" e "tonta" foram alguns dos adjetivos que ela dispensou à Astoria, que não percebeu a animosidade, mas ainda assim verbalizou os ciúmes que sentira imediatamente ao ver a mulher. Draco tratou de tranqüilizá-la afirmando que não tinha olhos para ela. Mas foi a aparição da copeira que o deixou mais agitado. A mulher encarou Astoria com ódio nos olhos, mas ele a advertiu com um olhar ainda mais perigoso e ela se retirou o mais depressa que pôde.

Draco também apresentou alguns pontos turísticos para Astoria, levou-a para passear na Avenida Corrientes e passar um fim de tarde no Café Tortoni. Ela ficou encantada com tudo o que viu, percebendo de imediato que se adaptaria facilmente ali.

Apenas uma coisa desagradou Astoria naqueles primeiros dias.

Certa manhã ela voltava do supermercado, onde comprara itens para preparar um jantar para ela e o marido, quando notou as caixas de correio do prédio. Tantos anos morando na Mansão Malfoy a fizeram achar curioso aquele item, e ela foi observá-lo. Notando uma pequena fechadura nas caixas, verificou seu chaveiro e viu que havia uma pequenina chave ali. Usando-a, abriu a caixa e viu que havia vários papeis ali. Começou a retirá-los, quando ouviu uma voz atrás de si:

-Hello, inglesinha.

Astoria tomou um susto e virou-se apressada para ver quem falava.

Um homem alto, mais até do que Draco, com cabelos louros mas não tão claros quanto os dele, de olhos negros e bem magro a encarava com um sorriso estranho. Incomodada com aquele olhar, ela indagou:

-Perdão, nós nos conhecemos?

-Não, mas permita que eu me apresente. Sou Hans. Moro no apartamento abaixo do seu.

O homem falava inglês com um sotaque estranho, não parecia ser argentino. Desconfiada, Astoria perguntou:

-Como sabe qual é o meu apartamento?

-Pela caixinha. ― Ele respondeu, indicando a caixa de correio aberta. Astoria olhou, e vendo-a aberta tratou de fechá-la.

-Muito prazer. ― Murmurou ela, querendo ser educada, mas sem fazer a menor questão de parecer simpática.

-O prazer é meu, inglesinha.

-Astoria. ― Cortou ela secamente. ― E como sabe que sou inglesa?

-Você não é a esposa do inglês sisudo que mora no mesmo apartamento? ― Perguntou ele.

-Sim. ― Ela respondeu, ainda desconfiada e seca. ― Você também é inglês? ― Ela perguntou por mera curiosidade.

-Não. Sou alemão. Hannover. ―Acrescentou, à guisa de explicação.

-Ah, sim. ― Astoria comentou sem muito interesse, dirigindo-se ao elevador. Enquanto apertava o botão, Hans a chamou:

-Inglesinha?

-Astoria!

-Sim, sim. Astoria. ―Ele pronunciou seu nome de um modo tão lascivo que fez a moça corar. ― Você e seu marido deviam procurar um sistema de isolamento de ruído. É um pouco difícil dormir ouvindo vocês.

Astoria arregalou os olhos, indignada com a indiscrição daquele sujeito. Amarrando a cara, entrou bufando no elevador, não sem antes ver o sorriso debochado que Hans lhe lançava.

Já dentro do elevador, ela se perguntava o que aquele homem poderia ter ouvido, já que ela e Draco só tinham transado no dia em que ela chegou e na manhã seguinte. Talvez tivessem mesmo exagerado no barulho, mas isso não justificava a atitude abusiva de Hans. Em todo caso, Astoria decidiu conversar com Draco a respeito de feitiços para isolar o som. E também concluiu que apesar daquele breve contato, já detestava Hans e não gostaria de tornar a vê-lo.

Já estavam no final da semana de "castigo".

Draco estava deitado ao lado de Astoria, que assistia à pequena televisão que ficava no quarto.

-Que diabos você vê nessa coisa? ― Indagou Draco. Astoria não respondeu.

-Astoria?

Ela estava tão entretida vendo um programa de auditório com cantores argentinos que não respondeu.

-Astoria, em que planeta você está?

Ela continuou distraída.

-Astoria! ― Ele chamou num tom de voz bem mais elevado, assustando-a.

-Ai, Draco! Que susto! O que é?

-Estou falando e você nem ouve, ligada como está nessa coisa.

-Ah. Desculpe. ― Disse ela, desligando o aparelho.

-Pode continuar assistindo. Não sei que diabos você vê de interessante nisso aí, mas tudo bem.

-Ah, querido. É legal ver os trouxas fazendo "trouxices". Eles são interessantes, se você olhar bem.

-Eu dispenso.

Astoria fez uma careta para Draco e guardou o controle remoto na gaveta do criado-mudo. Retirou dali uma revista feminina e uma caneta.

Draco observou-a se ajeitar na cama e começar a ler a revista. Sentou-se e também se ajeitou na cama, tentando ver o que ela estava fazendo. Ao ver o que era, disse:

-Você está trouxa demais para o meu gosto, Astoria. Que droga é essa aí?

Ela o olhou zangada:

-É um teste! Testes que fazemos para avaliar nosso relacionamento.

Draco olhou com mais atenção.

-"Quais fantasias posso realizar com meu parceiro"; "Como descobrir o que ele gosta na cama"; Francamente, Astoria, não é mais fácil descobrir isso conversando?

-Teoricamente sim. ― Ela respondeu, com ar sábio. ― Só que tem coisas que não tenho como perguntar, não é?

-Como o quê, por exemplo?

-Como isto aqui: - Ela lhe indicou e ele leu: "O que ele diria se você propusesse sexo a três?". Com uma expressão exasperada, Draco respondeu, entre irritado e divertido:

-Ora, francamente, Astoria! Isso é ideia que se apresente?

Ela o olhou desconfiada:

-Não seja sonso. Todo homem sonha em transar com duas mulheres ao mesmo tempo. Vai dizer que nunca pensou nisso?

Ele, parecendo insultado, respondeu:

-Claro que não, mulher! Está louca?

Astoria, pega de surpresa, perguntou toda fofa:

-Jura?

-Claro! Não quero ninguém na nossa cama. Não posso nem sonhar em ver outra pessoa tocando em você.

-É mesmo, é? ― Comentou ela, lisonjeada, mas provocadora. ― E se por acaso eu me envolvesse com alguém? Já pensou, de repente eu passar a me interessar por mulheres...

-Se alguém tocasse em você - ele a cortou, e de repente parecia muito sério e bastante assustador ― eu mataria. Teria um enorme prazer em acabar com ele, ou ela, fosse quem fosse, com as minhas próprias mãos. Quebraria costela por costela. Arrebentaria - lhe a cara até que minhas mãos sangrassem. Socaria até que os pulmões saíssem pela boca.

Astoria ficou assustada com aquelas palavras. Querendo desesperadamente mudar de assunto, desconversou.

-Não diga bobagens. E você sabe que não vai acontecer de eu me envolver com ninguém.

Ela abriu novamente a gaveta para guardar a revista. Ao guardá-la, encontrou na gaveta uma das camisinhas de Draco, que ela tinha guardado ali sem saber direito por que.

Pegou a camisinha e segurou-a entre os dedos polegar e médio da mão direita, rodando com o indicador, com uma expressão de curiosidade no rosto. Draco tinha se deitado novamente e se ajeitava no travesseiro quando ela disse, sem rodeios:

-Quero transar.

Draco virou-se para ela e se sentou tão rápido que nem parecia que um segundo antes estivera deitado.

-Opa! Agora! ― Ele disse, animado.

-Usando isto. ― Astoria mostrou-lhe a camisinha.

Draco a encarou parecendo extremamente zangado:

-Ora, mas o que é isso agora? Acha que peguei alguma doença?

-Claro que não, boboca! Se usou isso com as outras, suponho que esteja livre de doenças.

-Então, por que essa palhaçada agora?

Astoria ajoelhou-se ao lado dele e foi chegando pra frente lentamente enquanto falava:

-Porque nunca fiz sexo usando isso, e quero saber como é.

-Não é tão bom quando sem ela. ―Draco disse, tentando tirar a camisinha das mãos dela. Astoria conseguiu impedi-lo, e num gesto rápido passou uma perna por cima dele. Draco ficou entre suas pernas e ela se acomodou sobre o corpo dele. Ele sorriu e a puxou para um beijo, mas ao beijá-la tentou inverter a posição, ficando por cima dela.

Usando uma força que ela não sabia que possuía, Astoria pegou os pulsos de Draco e os forçou contra a cama, dizendo:

-Nada disso, querido. Vai ser do jeito que eu quero, ou não vai acontecer nada.

-Sim, señora. ― Draco respondeu, maravilhado com o jeito decidido dela.

Astoria curvou-se novamente sobre Draco, afrouxando levemente o aperto nos pulsos dele. Quando percebeu que ele não tentaria mais dominá-la, o soltou. Logo ele levou as mãos à cintura dela, ajudando-a com os movimentos que ela fazia no colo dele, ambos ainda vestidos.

Passado algum tempo, Astoria sentiu a excitação de Draco e também percebeu que ela própria já estava pronta. Tirou lentamente a blusa do pijama dele e tocou-lhe o mamilo com os dedos como se fossem tesouras. "Gosta disso?", indagou. Ele soltou um leve gemido. "Que bom, pois adoro quando você faz comigo.

Ao ouvi-la, Draco levou as mãos aos seios dela. Ela riu, animada, e deu lambidinhas no peito dele, ainda se movimentando sobre seu colo.

Ela recuou um pouco e puxou a calça de Draco, e a excitação dele surgiu bem em sua frente.

-Humm... ― Ela provocou. ― Você parece muito empolgado.

Levou o rosto em direção àquela demonstração de masculinidade, mas ele disse:

-É melhor não fazer isso, ou não vou aguentar por muito tempo.

Astoria deu uma risada bem alta, acariciou-o com o rosto e se afastou. ― Vamos ver se aprendi direitinho.

Segurou aquela parte tão desejável de Draco, sentindo-a pulsar inexorável em sua mão, e começou a colocar a camisinha. Draco mal conseguia se conter de tanta excitação.

Astoria tirou a camisola e depois, com uma lentidão torturante, a lingerie. Sorriu maliciosamente para Draco, que parecia usar de todo o seu autocontrole para esperar por ela. Lançou um olhar para aquela novidade que era a camisinha, estava muito curiosa para saber como seria. Foi cavalgando lentamente o corpo do marido, até começar a se encaixar lentamente nele, gemendo baixinho.

Agarrou novamente os pulsos de Draco e começou a movimentar os quadris bem devagar, experimentando a sensação do corpo dele dentro do seu, olhando-o nos olhos, ambos satisfeitos em ver o prazer estampado no rosto do outro. Inclinou o corpo e mordiscou as orelhas dele, brincando e deixando-o ainda mais enlouquecido. Arquejando, ele disse de modo quase ininteligível:

-Não sei o que você andou bebendo, mas estou adorando isso.

Astoria riu de um modo muito sensual e apertou suas pernas nos lados do corpo dele, forçando os quadris com mais força, sentindo-o preencher cada espaço seu. Os gemidos dos dois foram se intensificando. Ela estava adorando aquilo e mal percebia a diferença causada pelo preservativo.

De repente, Draco disse:

-Astoria, por favor, deixa eu tirar isso, tô quase...

-Não! ― Ela cortou. ― Não vai tirar nada! Quero que fique com ela até terminarmos!

-Mas Astoria! Vamos desperdiçar uma chance de ter nosso filho!

-Ora, seria muito azar se justamente hoje o seu espermatozóide mais esperto resolvesse sair. Esquece isso! E não pare!

Voltou a mordiscar as orelhas dele, e agora se movimentava tão rápido que chegava a sentir dor nas pernas. Draco também intensificou os movimentos, e após alguns instantes de uma dança erótica e frenética, eles gritaram e desabaram um ao lado do outro na cama.

Por alguns minutos, só se ouviam as respirações pesadas dos dois lentamente retomando o ritmo. Algum tempo depois, Draco disse apenas: "Caramba!".

Astoria não disse nada. Apenas riu de um modo desvairado. Draco não fazia idéia do quanto ela estava feliz e satisfeita consigo por provar para si mesma que se aquelas vagabundas que o marido procurara podiam satisfazê-lo usando aquela coisa, ela também podia.
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