Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
17 - Sombra

Os dias se passaram e, conforme Astoria havia previsto, sua adaptação à vida na Argentina foi excelente.

Três meses já haviam se passado e ela estava muito feliz com os novos rumos de sua vida junto ao marido. Apesar de estar tendo muito mais trabalho do que nos últimos anos, sentia-se feliz por ter uma vida a sós com ele, podendo cuidar dele e da casa sem a influência da sogra ou de empregados. Não que uma vida de luxo, com empregados cuidando de tudo, a deixasse infeliz, mas ter que lidar com o dia-a-dia de casa ajudou-a a criar mais proximidade com Draco. Durante aquele tempo, descobriu coisas que nunca tinha observado, como por exemplo, os temperos preferidos por ele, pequenas manias e coisas simples que ele gostava de fazer. Draco, por sua vez, também demonstrava estar mais atento à esposa, surpreendendo-a com lembrancinhas, doces e outros gestos carinhosos, o que antes ele não fazia com muita frequência.

A única coisa que incomodava Astoria era Hans.

Desde que haviam se falado pela primeira vez, o alemão não perdia uma oportunidade de assediá-la. Quando se encontravam no saguão do prédio ele sempre se dirigia a ela de modo impertinente, chamando-a de inglesinha e fazendo insinuações indecentes sobre o barulho que ela e o marido estariam fazendo enquanto transavam, sobre suas formas evidenciadas por suas roupas ou sobre o movimento dos seus quadris. Tentou encurralá-la várias vezes no elevador, mas ela sempre conseguia escapar e subir a escada, de onde aparatava direto para o apartamento, o que o deixava intrigado, o que ela sabia por ele ter feito comentários sobre o quanto ela era rápida para escapar dele.

Astoria ensaiou contar para Draco por duas ou três vezes que o vizinho a estava assediando. Ele próprio já notara que a esposa às vezes parecia irritada com algo. Porém, Astoria sabia muito bem o que iria acontecer se contasse ao marido o que estava havendo: Draco iria partir pra cima dele e se envolver em confusão. Ela queria evitar isso, pois já estavam numa situação delicada e ela não queria mais problemas. Porém, com o crescer da impertinência de Hans, Astoria se questionava se seu silêncio não estaria dando ao alemão a falsa impressão de que ela estava gostando do assédio.

Como estava acostumada a trabalhar mesmo sem necessidade, Astoria também sentia falta da ourivesaria. Após o primeiro mês na Argentina, já pensava em como poderia continuar com suas joias, mesmo ali distante. Então, sem comunicar a Draco, fez contatos com seus conhecidos no ramo do ouro e conseguiu contatos locais onde poderia negociar as joias já feitas e talvez revender outras, além de desenhar novas. Obteve êxito: seus desenhos fizeram sucesso nas joalherias e logo foram comprados, assim como suas joias. Ela ficou feliz em conseguir continuar trabalhando, apesar de ter consciência de que Draco ficaria furioso se soubesse.

Mas ela sabia que era preciso arriscar. Percebeu que o marido não tinha muita noção do quanto era necessário para manter a casa, pois sempre lhe dava pouco dinheiro para as compras e contas, mas notou que, além disso, ele ficava nervoso quando ela dizia que precisava de mais. Desconfiou que os negócios não estivessem bem. O dinheiro da família continuava confiscado. A certeza de que os problemas eram ainda maiores veio quando Narcisa procurou o filho, constrangida, querendo ajuda financeira para lidar com os empregados. Astoria e ela fizeram um acordo de não dizer nada a Draco, e Astoria enviou dinheiro frequentemente, fruto de seu trabalho, para que a sogra pudesse se manter.

Em meio a tudo isto, o aniversário de Draco se aproximava e Astoria estava preparando uma surpresa para ele. Ela comentou animadamente sobre a data com o marido, mas ele não pareceu muito empolgado:

-Não quero fazer nada, meu bem. Longe de casa, sem minha mãe, prefiro deixar a data simplesmente passar.

-Ao menos um jantarzinho podemos fazer!

-Não quero que você tenha trabalho, amor. Não se preocupe.

Astoria, no entanto, não se deixou levar pelo desânimo dele. Depois de confirmar que ele trabalharia normalmente, tratou de fazer planos para que o dia fosse marcante.

Quando a data chegou, Astoria preparou um café da manhã especial e depois esperou ansiosamente que o marido saísse. Aguardou a empregada chegar, deu-lhe algumas instruções e então saiu para buscar o presente do marido e comprar coisas para lhe preparar um jantar.

-Vou procurar algumas coisas para o aniversário do Draco. Sabe onde encontro um bom vinho dos elfos?

A mulher lhe indicou um lugar e Astoria, feliz, anotou numa pequena lista o que pretendia comprar. A loja indicada era distante e ela ficou receosa, mas mesmo assim resolveu ir.

-Por favor, deixe algumas travessas em cima da mesa, bem polidas. ― Disse à empregada. - Vou preparar um assado com batatas e também um pudim de frutas. Ele vai adorar! ― Ela comentou, animada. Levando uma enorme sacola, saiu.

Distraída pensando nos preparativos do jantar, Astoria acabou pegando um ônibus errado. Só notou o erro ao chegar ao ponto final e perceber que o ponto de referência que esperava ver não tinha passado. Nervosa, tentou se informar, mas acabou se atrapalhando com seu pouco espanhol. Após vários minutos, um jovem conseguiu lhe indicar que ônibus deveria pegar para chegar onde queria.

Conseguiu enfim comprar o vinho, e ao olhar as horas percebeu que precisaria correr. Cogitou pegar um trem, já vira uma estação perto de casa, mas Draco a alertara de que eram perigosos. Optou por outro ônibus, para chegar ao local onde o presente de Draco estava sendo preparado. Ela trabalhava nisso havia vários dias.

Demorou muito tempo para chegar onde queria, e quando finalmente o presente estava em suas mãos, a hora já estava bem adiantada. Correu para pegar o ônibus e chegar em casa o mais depressa possível.

Mas aquele não era um dia de sorte para Astoria. Ela errou de ônibus outra vez, e ao chegar ao ponto final entrou em pânico: já estava bem tarde, ela não tinha ideia de onde estava e seu jantar de surpresa para o marido estava correndo um sério risco.

Um homem a viu nervosa e ofereceu ajuda. Ela explicou a situação com dificuldade, pois nervosa como estava, mal conseguia falar seu pouco espanhol. O homem lhe disse que poderia dar-lhe uma carona, pois passaria perto de seu bairro. Apesar de achar arriscado entrar no carro de um desconhecido, ela aceitou, pois queria mais que tudo chegar em casa. O homem a conduziu respeitosamente em seu carro, conversando sobre a Inglaterra, país que ele conhecera e onde um dia pretendia voltar.

Quando reconheceu o quarteirão nas imediações de onde morava, Astoria suspirou aliviada. Pediu ao homem que parasse o carro, pois queria comprar uma torta, e ele a aguardou para levá-la até em casa.

Finalmente, ela chegou. Agradeceu efusivamente ao homem e saiu do carro, carregando a torta, a bolsa e sua sacola, agora já bem pesada.

Entrou no prédio apressada, pensando se conseguiria preparar o jantar antes de Draco chegar. "Espero que dê tempo", pensou, passando com dificuldade pela porta, já que carregava tantas coisas.

ENQUANTO ISSO...

Já tinha entrado e saído do apartamento inúmeras vezes. Cada vez que debruçava na grade da varanda e olhava a rua sem vê-la, sentia mais raiva. "Terá que me dar uma boa explicação", pensava ele, furioso. "Onde ela se enfiou?" Sua respiração estava ofegante e ele tamborilava os dedos nervosamente na grade. Seus pensamentos pararam quando um carro encostou-se ao meio-fio.

Segundos depois, viu sua esposa saindo do carro de um desconhecido. O homem, solícito, abriu-lhe a porta e ela saiu carregada de compras.

Parecia que tinha tomado um soco no estômago. Mal conseguia respirar. "O que essa...", começou a pensar, enquanto ela entrava no prédio.

E ao vê-la sair do carro de um estranho, uma ideia absurda passou por sua cabeça e o impulsionou, cheio de ódio, até a porta para recebê-la.

Astoria girou a chave fechadura e quando ia abrir a porta, levou um susto, pois alguém a abriu violentamente por dentro. Um segundo depois, seu braço foi agarrado e ela foi puxada para dentro bruscamente.

-Onde você esteve? ― Draco gritou.

-Ah, Draco! Por que não me disse que voltaria mais cedo?

Astoria lamentava que Draco tivesse chegado cedo por ele estragar a surpresa. Porém, Draco interpretou sua decepção de um modo bem diferente.

-Porque queria surpreender você! Só fui à empresa me certificar que estava tudo bem e voltei para podermos sair. Mas fui eu quem me surpreendi, não é? Chego em casa, não encontro minha esposa e eis que a vejo chegando com um homem que nunca vi! Onde você esteve?

Sem querer dar corda à discussão, Astoria tentou minimizar, indo em direção à cozinha com a torta e as sacolas.

-É uma longa história, Draco. Estou tão cansada! Bem, agora que você já viu tudo, o jeito é você esperar eu preparar tudo e...

-Deixe de ser sonsa! ― Draco gritou. ― Eu vi você chegar no carro de outro homem! Quem era ele? Onde vocês estavam? Há quanto tempo vocês transam?

-Draco! ― Exclamou Astoria, escandalizada. Ela se virou para encará-lo. ― Não é nada disso! Não seja grosseiro! Saí para comprar coisas para fazer um jantar e acabei me perdendo! Aquele senhor me ofereceu uma carona! Foi só isso!

-Que você estava perdida, nem precisava dizer. ― Ele comentou com sarcasmo, e continuou: -Estou vendo o tipinho de mulher que você está se revelando. Sem ninguém conhecido para ficar de olho, já está indo atrás de machos!

Astoria amarrou a cara, ofendida. Porém, estava decidida a não brigar com Draco em pleno aniversário dele, ainda mais por ciúmes. Virando-se para ir para a cozinha, disse:

-Não sou obrigada a aturar isso.

Draco ficou furioso com a atitude dela. Avançando em sua direção gritou:

-Não dê as costas para mim!

Então segurou-a com força pelo braço, o que fez com que ela se desequilibrasse, derrubando a torta no chão.

-Olha só o que você fez! ― Astoria exclamou, largando a sacola e a bolsa e abaixando-se para pegar a caixa e verificando que o doce tinha se espatifado. Ainda no chão, Astoria olhou para Draco magoada. Seus olhos estavam ficando marejados. ―Está satisfeito agora?

-Não! ― Ele gritou. ― Quero saber que merda de carro era aquele e quem era o filho da puta que estava te comendo!

-Para, Draco! ― Astoria gritou, levando as mãos aos ouvidos, angustiada! ― Pare de me insultar à toa! Eu já expliquei! Ele só me deu uma carona!

-Pare de mentir, sua vaca!

Sua vaca.

Sua vaca.

Aquelas duas palavras explodiram no ouvido de Astoria como um tiro de canhão. Ela encarou Draco por alguns instantes, atordoada. Seu rosto pasmo e pálido contrastava com o dele, vermelho e furioso.

Então, num acesso de raiva, Astoria se aproximou rapidamente de Draco e com as duas mãos espalmadas deu-lhe um forte empurrão, batendo as mãos em seu peito, enquanto gritava:

-Com quem pensa que está falando?

Pego de surpresa pela reação dela, Draco foi impulsionado para trás e quase caiu. Mal tinha se recomposto e Astoria o atacou de novo, desta vez com dois empurrões rápidos e fortes.

-Aprenda a me respeitar, cretino! Eu não fiz nada! Nada!

Ela pegou sua bolsa e remexeu nervosamente em seu interior, procurando algo. Enfim encontrou um pacote pequeno, retangular, delicadamente embrulhado. Olhou para Draco cheia de raiva e disse:

-Foi por causa disto que me perdi na cidade e demorei a voltar. Mas é mais fácil para você achar que estou te traindo, não é?

Draco abriu a boca para responder, porém Astoria atirou o pacote em cima dele.

-Feliz aniversário, seu babaca!

O pacote bateu com força em Draco, quase acertando seu rosto. Astoria seguiu passando por Draco e andou apressada de volta à porta. Ele ainda tentou impedi-la.

-Astoria, volte aqui! Não vou correr atrás de você! Volte aqui, Astoria! Astoria!

Mas uma forte batida da porta informou-o de que era tarde: ela já havia saído.

Draco murmurou um palavrão. Olhou para o chão e viu a torta esfarelada e ao seu lado, a sacola abandonada pela esposa. Decidiu verificar o conteúdo.

Um sentimento de culpa começou a crescer em seu peito ao ver a elegante garrafa de vinho, um pacote do seu chá favorito, doces típicos de sua terra natal e os ingredientes para o preparo de um de seus pratos favoritos. "Caramba", murmurou. Havia um pacote fino, cor-de-rosa, e ele abriu às pressas. Viu uma bela lingerie vermelha, e por um segundo fugaz imaginou que suas suspeitas estavam confirmadas, mas logo depois entendeu que Astoria tinha comprado a peça para usar com ele. A etiqueta estava lá para comprovar que não tinha sido usada.

Completamente frustrado, resolveu abrir o pacote que Astoria lhe atirara.

Após rasgar o bonito papel de embrulho, viu uma caixa de madeira amarrada com uma fita de cor escura. Desamarrou-a e abriu a caixa. Ao ver seu conteúdo, ficou boquiaberto e uma exclamação de surpresa escapou de sua boca.

Era um relógio de ouro maciço, muito bem trabalhado, onde se viam ao redor do mostrador as iniciais de seu nome, "DM". O mostrador, à primeira vista, parecia normal, mas logo ele notou que havia alguma magia impregnada. Sua dúvida foi sanada quando encontrou um bilhete junto à peça:

"Meu amor,

Espero que goste do presente que fiz para você! Bem, a parte em ouro foi feita por mim, mas a máquina foi feita por um relojoeiro bruxo.

Seu novo relógio tem três faces: a primeira é um relógio normal. A imagem ao fundo, como você deve ter notado, é a constelação de Draco. A segunda é um espelho de múltiplos sentidos, que você poderá usar para se comunicar com quem quiser. Quando alguém te chamar, o relógio vai tremer levemente, assim você não chama a atenção dos trouxas. A terceira face é o brasão da nossa família, e se você tocá-lo terá uma lanterna mais potente do que a luz da varinha.

Para ativar os feitiços, toque o mostrador com sua varinha e pronuncie seu nome completo em voz alta.

Fiz com todo o carinho, mas nenhum presente chegaria à altura do meu amor por você!

Feliz aniversário!

Beijos!

Sua Astoria"

Draco encarou o papel por vários minutos. Um sentimento de intensa vergonha o acossou. Sentindo seu rosto arder, disse:

-Puta merda! Eu fiz de novo.

Levou as mãos à cabeça e repassou a briga em sua mente. Ao olhar para o chão e ver os destroços do seu jantar de aniversário, percebeu que mais uma vez tinha errado. E que mais uma vez tinha magoado Astoria.

MOMENTOS ANTES...

Astoria desceu pelo elevador arquejando. Sua garganta doía, devido ao choro que ela tentava conter. A humilhação pesava-lhe de tal forma que ela não conseguia erguer a cabeça.

Ao chegar à porta do prédio, percebeu que esquecera a chave em casa. Dirigiu-se ao botão que abria a porta, mas antes que pudesse alcançá-lo, notou que alguém chegara primeiro.

Hans.

Exibindo o típico sorriso cínico que sempre mantinha no rosto ao abordar Astoria, ele bloqueava seu acesso ao botão que abria a porta do prédio.

Tentando manter a calma, ela pediu licença. Ele não a atendeu. Ergueu as sobrancelhas e disse:

-Você parece nervosa. Brigou com o marido?

Imaginando que ele tivesse ouvido a briga, ela apenas respondeu:

-Não é da sua conta. Com licença.

-Bom, é uma nova modalidade de ruídos, não? Geralmente ouço vocês transando. Brigando, é a primeira vez.

Astoria não queria se aborrecer ainda mais. Sem dar atenção a ele, disse:

-Estou educadamente lhe pedindo licença. Preciso sair.

-Sabe ― Ele prosseguiu, ignorando a fala dela completamente. ― Se eu fosse o seu marido, não perderia tempo brigando com uma belezinha como você. Se eu fosse ele, você passaria o dia todo nua, e eu não sairia de cima de você, beijando essa boca linda e abusando desse corpinho gostoso.

Farta do assédio, Astoria voltou à porta, para verificar se havia algum outro modo de sair. Enquanto isso, dizia:

-Pois para minha suprema felicidade, você não é, e nunca vai me tocar.

-Não mesmo? ― Ele desafiou. ― Quem sabe? Do jeito que o imbecil do seu marido está te tratando, logo logo vou ter você na minha cama.

Astoria já estava cansada daquele assédio, e naquele dia estava irritada demais para simplesmente ignorar. Furiosa, virou-se e encarando Hans, disse:

-Será que você não se enxerga? Eu nunca vou ser sua, seu animal! Você me enoja! Não achei minha vagina no lixo, para ir para a cama com você! Draco pode ter os defeitos que for, mas é muito superior a você, um cretino babaca que fica assediando a mulher dos outros. Eu te odeio! Faça o favor de me ignorar, nada me dá menos prazer do que olhar para a sua cara! Seu moleque estúpido! Vá atrás de uma mulher para lhe satisfazer e me deixe em paz!

A expressão debochada de Hans transformou-se em uma máscara de rancor e ódio. Com a voz perigosamente baixa, ele disse:

-Você é muito atrevida, inglesinha. Se eu fosse você, tomaria mais cuidado com as palavras.

-Inglesinha é a puta que o pariu! ―Explodiu ela. ― Meu nome é Astoria! Faça o favor de não me dirigir mais a palavra, ou será assim que vou lhe responder daqui pra frente, seu tarado!

No momento em que ela pronunciava as últimas palavras, um casal entrava no prédio. Astoria pediu que segurassem a porta e saiu. O casal a observou escandalizado, pois tinha ouvido seus gritos do lado de fora.

Enquanto isso, Hans a observava sair. Ela estava raivosa demais para notar que uma sombra de maldade perpassava o olhar do alemão enquanto ela saía. Astoria mexera com seus brios ao insultá-lo daquela forma. E embora ela não pudesse saber, havia razões de sobra para, a partir daquele momento, ela começar a sentir medo de Hans.
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