Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
18 - Lamento

Astoria vagou desnorteada por vários minutos até chegar a um parque público não tão distante de casa. Sentou-se em um banco e manteve o olhar perdido em algum ponto, sem realmente ver alguma coisa. Sua garganta agora doía de modo quase insuportável.

Sentia um misto de vergonha e raiva que parecia corroê-la . Vergonha por ter sido ingênua preparando aquela pequena comemoração, achando que Draco ficaria feliz. Desde quando aquele estúpido valorizava suas atitudes? Fora tola achando que ele ficaria tocado. Porém, maior que a vergonha, era a raiva. Raiva por mais uma vez ter sido insultada e por ter sido tratada como uma vagabunda, sem ter dado qualquer razão para isso.

Passou a observar as pessoas no parque. Havia crianças brincando, idosos em suas caminhadas, jovens de várias faixas etárias aproveitando o dia de sol. Casais apaixonados namoravam, outros apenas passeavam. Uma gestante passou acompanhada do marido, os dois parecendo felizes. Outras tantas pessoas passavam, alguns apressados, outros tranquilamente. Todos parecendo pertencer a um mundo que não era o dela.

Astoria observou os casais. "Será que ela foi xingada por ele alguma vez?", pensou, observando um casal de meia-idade. "Será que usarão chantagem emocional para fazê-los se casarem? , pensou, vendo uma jovem que aparentava a mesma idade que ela tinha ao se casar. "E aquela ali? Será que o marido dela já a deixou de olho roxo alguma vez?", pensou ao ver um casal que parecia ser da mesma faixa etária que ela e Draco.

Então ela se sentiu pequena e insignificante, um nada perto de todos ali. Naquele momento, ninguém era mais infeliz que ela. Seu desamparo era enorme e ela nunca se sentira tão só.

Um rancor indescritível assomou-a e ela desejou que sua dor se refletisse em cada um ali. Que as crianças que brincavam se machucassem e fossem embora chorando, que os casais brigassem e se separassem, que o bebê não vingasse, que os idosos morressem. Havia tanto ódio em seu coração naquele momento que toda felicidade lhe parecia falsa.

Ela respirou fundo tentando se acalmar e refletiu: Por que desejar o mal para pessoas que não lhe causaram prejuízo algum? Eles não tinham culpa por sua vida estar daquele jeito. Ela era uma boa pessoa, afinal, e logo se arrependeu daqueles pensamentos.

Resolveu sair dali. Estava exausta, mas ainda assim caminhou bastante até chegar a um café. Sentou-se a uma mesa isolada e pediu chocolate e bolo, forçando um sorriso para a garçonete que a atendeu.

Enquanto esperava, pensou em sua vida nos últimos anos. Em como fora forçada pelos pais a se casar com Draco para salvar sua família da ruína, quando não tinha nem 18 anos e abandonou seus sonhos de ter uma joalheria, viajar pelo mundo e viver um grande amor. Ao menos o amor ela achava que tinha encontrado, até aquele dia. Agora, sentia-se tola por ter acreditado por um minuto que fosse que Draco a amava.

A garçonete trouxe seu pedido e ela ficou ali, remexendo o chocolate, melancólica.

"O que tenho feito da minha vida, me dedicando a um homem que não me respeita? Para que tenho vivido? Quem sou eu", ela pensava com tristeza.

Uma lágrima percorreu seu rosto e caiu em seu peito. Sentia-se miserável naquele instante.

"Até quando vou me submeter a isso? Por que aceito ser tratada assim? Eu o amo, eu sei, mas se ele não me respeita, de que adianta estar a seu lado?"

Imaginou-se separada de Draco. Um escândalo, sem dúvidas. Nunca tinha havido um divórcio na família Malfoy, ela se lembrara. Toda a alta sociedade bruxa comentaria. Ela, que já tinha fama de interesseira por ter se casado cedo com Draco, ficaria ainda mais mal falada ― afinal, se separar dele quando os negócios iam mal seria a prova de seu interesse. Sua mãe teria um ataque.

Nada disso, no entanto, lhe importava naquele momento. Ela só pensava no quanto estava sofrendo por perceber que Draco não a respeitava.

"Não quero mais isso", pensou. "Essa relação doente, em que eu sempre saio ferida. Eu mereço mais. Mereço alguém que me ame de verdade, e não um homem que me trata como se eu fosse lixo."

Com este pensamento, terminou sua refeição e começou a dirigir-se para casa, bem lentamente. Quanto mais próxima estava, mais a melancolia a deixava e ia dando lugar a uma determinação que ela não experimentava havia muito tempo.

Chegou ao prédio, e embora não tivesse visto, soube que Draco estivera à varanda esperando por ela mais uma vez, pois quando se aproximou da porta ela se abriu sozinha. Entrou com receio de encontrar Hans, mas felizmente ele não estava lá.

Ao entrar em casa, viu Draco aproximar-se rapidamente dela, parecendo preocupado.

-Astoria, por Merlin, onde você esteve? Já fazem mais de quatro horas que você saiu daqui completamente fora de si! Como você está? Onde foi?

Astoria lançou-lhe um olhar fulminante:

-Estava pastando, Draco. Não é isso o que as vacas fazem?

Pego de surpresa pela resposta dela, Draco disse desconcertado:

-Eu estava preocupado com você.

-É mesmo? Estou tocada. ― Ela debochou.

Draco tentou apaziguar as coisas:

-É sério, Astoria. E olha, eu quero te pedir desculpas.

-Eu não aceito. ― Ela o cortou. ― Guarde suas desculpas para você. ― Completou, enquanto dirigia-se ao quarto para pegar roupas limpas e tomar um banho.

Naquela noite, Draco dormiu no sofá,arrependido por ter ofendido a esposa. Astoria passou a noite em claro, e só quando os primeiros raios do sol apareceram, ela adormeceu.

Seu rosto estava inchado de tanto chorar por toda a madrugada.
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