Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
3 - Ciúmes

Astoria abriu os olhos lentamente e viu que o dia já tinha clareado. Espreguiçou-se e tateou a cama às cegas, procurando o corpo do marido, mas não o encontrou. E no mesmo instante em que se dava conta de que ele não estava ao seu lado, ouviu sua voz vinda de algum lugar do quarto:
-Dormiu bem, querida?
Astoria sentou-se rapidamente na cama, cobrindo-se com o lençol. Droga! Tinha falhado com as recomendações de Meg! Lá estava Draco, sentado, arrumado, penteado e cheiroso, lendo tranquilamente o Profeta Diário, enquanto ela estava esparramada na cama, ainda sob efeito da noite de núpcias. Que maravilha! A primeira impressão que ela deixaria era a de ser uma mulher preguiçosa. Draco, no entanto, não parecia incomodado com isso. Mostrou o jornal a ela, comentando:
-Ficou linda nas fotos.
De fato, havia uma enorme fotografia do casal sorridente, sob a legenda: Draco e Astoria Malfoy: O casamento do ano.
A jovem sorriu timidamente.
-Nem vi o dia clarear! ―Exclamou, constrangida. ― Desculpe-me, eu já deveria ter me levantado.
-Por que? ― Indagou Draco, erguendo uma sobrancelha. ―Você estava cansada. Fez muito bem em dormir o quanto pôde.
-Sim, mas não é correto eu dormir até tarde e você ficar aí me esperando, não é? Que vergonha. ― Ela disse, tentando parecer engraçada.
Draco dobrou o jornal, abandonou-o na poltrona em que estava sentado e dirigiu-se até a cama. Acariciou o rosto enrubescido de Astoria, que suspirou àquele toque. Enquanto tirava alguns fios de cabelo do rosto da esposa, Draco disse:
-De onde você tira essas ideias, heim? Somos marido e mulher, não precisamos de formalidades. ― E a puxou para si, colando seus lábios aos dela.
Astoria correspondeu ao beijo com intensidade. Aquilo tudo estava ficando muito bom. Era cedo para dizer que seus sentimentos por Draco estavam mudando, mas certamente ele já não lhe parecia o mesmo homem horrível que visitava sua casa para negociá-la com seu pai.
E ela não podia ignorar o desejo que despertava no marido, até porque, naquele momento, ele estava aproveitando o fato de ela ainda estar nua e enrolada apenas em um lençol para lhe fazer carícias muito íntimas, que só não os levaram à continuação da noite de núpcias porque Astoria sussurrou:
-Se continuarmos nesse ritmo, não sobrará nada de mim para você hoje à noite.
Draco deixou-a ir se arrumar, mas ela notou sua expressão contrariada. E sentiu os olhos dele acompanhando seu corpo mal coberto até o banheiro, onde ela sorria feliz sob a água, pelo início do casamento estar muito melhor do que ela tinha esperado.
Minutos depois, à mesa do café, Draco a observava de modo insistente. De alguma forma, era diferente do olhar de antes, no quarto. Era como se ele a investigasse.
-Algum problema? ― Questionou.
-Esta blusa. Acho que você vai sentir frio com ela. É melhor vestir um casaco.
Astoria observou a peça, uma blusa azul clara de alcinhas que deixava boa parte do seu colo à mostra.
-Mas está sol! Veja só o dia, como está lindo. Acho que não preciso me preocupar com isso.
-Vista um casaco - Draco repetiu, num tom excessivamente firme. ― Vamos viajar por horas e não quero que você se sinta incomodada.
Sem querer criar um clima ruim, Astoria obedeceu, apesar de sentir-se contrariada com o excesso de zelo do marido.
Após tomarem o café da manhã, Draco saiu para tratar da devolução das chaves do apartamento e Astoria permaneceu no local, à sua espera. Sorte sua. Porque após alguns minutos, sentiu sua bolsa vibrando e ao verificar, viu que era sua mãe chamando-a por um Espelho de dois sentidos.
-Olá, mamãe.
-Olá, filha! Como você está?
-Estou ótima. Obrigada.
-Parece bem disposta!
-Estou mesmo. Draco e eu vamos sair dentro de alguns instantes para nossa lua-de mel.
-Ah, que bom! Ele está aí?
-Não. Saiu para resolver algumas coisas do apartamento onde passamos a noite.
-Ah sim. ―A expressão no rosto da mulher passou da amabilidade à curiosidade. ― Então, você pode me dizer: como foi a noite?
Astoria ficou chocada com a falta de discrição de sua mãe e tentou disfarçar.
-Foi ótima. Draco é muito carinhoso.
Sua mãe pareceu irritar-se:
-Ora, não seja puritana, diga logo o que quero saber: ele foi homem para você?
-Mamãe!
-Vamos, filha! Conte-me tudo! Quero saber se já estão trabalhando para terem um herdeiro.
Astoria corou furiosamente. Que raiva estava sentindo daquela intromissão! Olhou para os lados para certificar-se de que não havia ninguém ouvindo e disse rapidamente:
-Sim, mamãe, muito homem. Se quer saber, não se cansou antes de me procurar pela terceira vez. Oh sim, ele é um belo exemplar de macho, mal me deixou fechar as pernas.
-Não fale assim, menina! Não seja vulgar!
-Ora, não era o que a senhora queria saber? Está preocupada com o quê? Que ele não fique satisfeito e devolva a sua filha? Que o negócio que vocês fizeram seja desfeito? Não se preocupe, parece que isso não vai acontecer. Ele pareceu bem contente esta manhã, oh sim, e faltou pouco para me fazer abrir as pernas outra vez! Quer saber o tamanho também?
-Astoria Greengrass, como ousa falar assim com sua própria mãe?
-Astoria Malfoy, e, por favor, não me encha a paciência! ― Irritou-se a jovem, atirando o espelho de volta à bolsa novamente.
Não sabia ao certo o porquê de sentir tanta raiva da mãe. Não era novidade ela ter se casado à força e aquela curiosidade não era assim tão condenável. Mas, investigando seus sentimentos com mais atenção, concluiu que o motivo da raiva foi aquela conversa tê-la feito se lembrar do que ela representava naquela história toda: um objeto.
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Passaram duas semanas viajando, passeando e fazendo amor. Draco e Astoria estavam mais felizes do que se poderia supor para um casamento arranjado. Estavam realmente se dedicando a fazer aquilo dar certo. Era bom para ele. Era bom para ela. Era bom para ambos, e eles sabiam muito bem disso.
Finalmente, retornaram à antiga Mansão Malfoy. A luxuosa residência do novo casal, despida dos antigos vestígios de magia negra e totalmente pronta para receber a nova integrante da família. Astoria encantou-se ao ver o quarto maravilhoso que fora preparado para ela.
Não tardou, porém, a perceber a vida que teria naquela casa.
A onipresente Narcisa Malfoy não lhe dava o menor espaço para interagir com as questões da casa. Cabia-lhe tão somente concordar com tudo. O máximo que podia fazer era pedir um chá para as empregadas, ou escolher entre dois pratos pré decididos pela sogra para o jantar. Seu marido, ocupado demais com o trabalho, pouco tempo tinha para lhe dar atenção, e suas conversas se limitavam ao horário do jantar e aos poucos momentos antes de dormir. Não tardou também a descobrir que não teria seu marido nas noites de quarta-feira, pois ele se reunia com amigos para jogatinas intermináveis e só retornava para casa quando ela já estava havia horas mergulhada em sono profundo. Logo, uma palavra passou a definir com perfeição seus dias de casada: tédio.
Sendo assim, foi com alegria que ela recebeu a notícia de que dentro de alguns dias, ela e Draco compareceriam a um almoço de negócios. Astoria sabia que provavelmente a ocasião seria formal e um pouco chata, mas animou-se com a possibilidade de sair um pouco, participar da vida social do marido e das conversas com as esposas dos amigos dele. Ela mandou fazer uma roupa especialmente para a ocasião e aguardou ansiosamente a data, pensando nas joias que usaria, nos sapatos e bolsa, e tudo o que realçaria sua beleza ao lado do marido.
No dia do almoço, ela apareceu belamente vestida, usando uma camisa cor de pérola, com uma leve transparência, uma saia um pouco mais escura um pouco acima dos joelhos e um belo chapéu, sapatos de salto que combinavam com a bolsa, jóias finas e maquiagem leve. Estava realmente linda e elegante.
Astoria desceu as escadas, feliz, ao encontro de Draco, que já a esperava arrumado para o evento. Ao vê-la, sua expressão não demonstrou surpresa ou agrado. Pareceu, na verdade, irritado com o que via. Sem perceber o olhar dele, Astoria sorriu e disse com simplicidade: "Vamos?"
Draco a olhou meticulosamente. Sua expressão era de extrema contrariedade.
-Onde você pensa que vai vestida assim?
Astoria, espantada, olhou para ele e só então percebeu sua expressão.
-O que há de errado? Você não gostou?
-É claro que não gostei! Olha só isso! Dá para ver cada curva do seu corpo! Pode ir lá pra cima escolher outra coisa!
-Mas Draco ― ela contestou, contrariada ― mandei fazer essa roupa especialmente para hoje! E está muito bonita, veja! ― Ela tentava inutilmente fazê-lo prestar atenção à sua produção, mas a cara dele só piorava.
-Qual é o seu problema? Acha mesmo que vai andar comigo assim? Veja este decote! Olha essa blusa! Você está quase nua!
-Que exagero! O decote não mostra nada demais e a blusa não é tão transparente.
Draco agarrou um de seus braços com força e a puxou. Seus rostos ficaram bem próximos. Então ele disse baixinho, com uma voz ameaçadora:
-O que é que você quer? Se exibir? Quer se esfregar na cara dos meus amigos?
-Você está sendo ridículo, Draco. E isso não é necessário! Solte-me!
-A ridícula aqui é você.
Astoria engoliu em seco, cheia de raiva:
-Gastei 350 galeões para fazer essa roupa e você implicando com ela à toa.
Draco não gostou nem um pouco de ouvi-la discutindo. Soltou-a, olhou-a com uma expressão enojada e disse:
-Você está parecendo uma prostituta.
Astoria ficou chocada com aquela grosseria. Engoliu em seco novamente. Queria socá-lo, mas sabia que não poderia fazer isso. Então, deu-lhe as costas e subiu de volta ao quarto, onde escolheu o vestido preto mais simples que tinha, tirou todas as joias e trocou a maquiagem por um simples batom. Isso depois de passar vários minutos chorando, pela ofensa gratuita que tinha acabado de sofrer. Com raiva, rasgou a blusa que tinha custado alguns galeões em vários pedaços que não serviriam sequer para limpar um móvel velho.
Já vestida, encarava o espelho, triste.
Uma das empregadas bateu à porta e entrou, avisando que Draco a estava chamando. Sem dar atenção ao recado, Astoria pediu:
-Pode trançar meu cabelo?
Surpresa, a empregada indagou:
-Como a senhora deseja que eu faça?
-Tanto faz. ― Respondeu Astoria, desinteressada, passando ―lhe uma escova.
Ao reaparecer diante do marido, ele a observou novamente, desta vez aprovando o visual insosso. Percebendo seu rosto insatisfeito, disse-lhe secamente:
-Um dia você vai entender que tudo o que faço é para o seu bem.
E assim, partiram para o almoço, onde o primeiro evento social de Astoria Malfoy resumiu-se a passar a tarde sentada ao lado do marido exibindo sorrisos falsos, com a certeza de ser a mulher mais sem graça da ocasião.
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