Beco Diagonal ― do seu jeito sempre
9 - Horror

Draco pegou a mão de Astoria e a puxou violentamente, afastando-se com ela do público que ainda aplaudia. Blaise, que ainda recebia os cumprimentos dos convidados, não notou o desagrado do amigo por vê-lo dançando com sua mulher.

Malfoy andava com tanta pressa e raiva que esbarrava em outros convidados e estava quase derrubando a esposa, tanto que ela exclamou: "Calma Draco!" Mas ele a ignorou. O casal encontrou Charlotte e Theodore, que se espantaram ao vê-los indo em direção à saída daquele jeito.

-Draco ― chamou Nott ― vocês já estão indo?

-Sim. ― Respondeu ele secamente, sem parar para dar atenção ao amigo. ― Não estou me sentindo bem.

-Até mais! ― Charlotte se despediu, mas Astoria nem teve tempo de acenar para ela.

Já estavam a poucos centímetros do portão quando Astoria falou:

-Draco, por favor, eu posso explicar!

-Explicar? ―ele gritou, fazendo com que ela se encolhesse assustada. ― Explicar o quê? Eu vi!

-Foi só uma dança! Não precisa ficar nervoso! ― Ela disse, plenamente consciente do quanto suas palavras soariam falsas, uma vez que ela mesma sabia que não tinha sido uma dança qualquer.

-Ah, só uma dança? ―Draco repetiu, em tom irônico, seus olhos se estreitando perigosamente. ― E em que universo uma simples dança inclui minha mulher fungando no pescoço de outro homem?

Astoria corou, envergonhada.

-Não foi nada disso. Acontece que...

-Acontece que você estava se esfregando com o Zabini diante de todos os convidados! ― Ele gritou outra vez. Astoria viu pela sua visão periférica que Eleonora tinha aparecido para ver que gritaria era aquela, mas a anfitriã se afastou ao notar que era uma briga de casal. Draco prosseguiu irritado:

-Zabini passando a mão em você, quase te beijando... Mais um pouco e iriam transar ali mesmo!

-Draco!

-Não sei onde estou que não enfio a mão na sua cara! ― Ele gritou tão perto do rosto dela que algumas gotas de saliva respingaram em Astoria. Ela então se deu conta de que o hálito dele estava bem forte, com cheiro de bebida alcoólica. E embora soubesse que ele estava zangado pelo fato de tê-la flagrado nos braços de Blaise, percebeu que seria inútil argumentar, pois ele estava também alterado pela bebida.

-Vou chamar um táxi trouxa para irmos embora. ― Ela disse, caminhando para o portão.

-Que táxi trouxa o quê? Vamos aparatar.

-Você não está em condições, Draco, não é seguro! ― Astoria ia dizendo, quando ele, irritado, avançou em sua direção, agarrou sua mão e desaparatou.

Os dois aparataram nos jardins da mansão. Draco dirigiu-se imediatamente à entrada da casa enquanto Astoria, assustada, observava suas mãos, na qual alguns dedos formigavam. Notou que perdera algumas unhas e que seus dedos sangravam. Draco, no entanto, parecia bem. Ao ver o resultado da aparatação precipitada, disse indignada:

-Você enlouqueceu? Poderia ter nos matado!

-Quem dera ter nos matado, para me livrar da vergonha que você me fez passar!

Indignada, ela protestou:

-Seu irresponsável! Olha só o que você fez! Poderia ter nos causado ferimentos graves!

-Ferimentos graves são o que você merece neste momento! ―sussurrou Draco, sua voz transbordando ódio. Astoria o encarou, zangada. Draco não lhe deu atenção, entrando na casa antes dela.

Ao entrar, Astoria viu Draco parado, diante do local onde ficavam várias bebidas, em uma das salas da mansão. Ao ouvi-la chegar, ele virou-se e perguntou, parecendo ao mesmo tempo nervoso e ansioso:

-O que há entre você e Blaise?

Astoria, tentando a todo custo manter suas feições inescrutáveis, respondeu:

-Nada, Draco. Pare de ficar pensando bobagens, por favor!

-Fale a verdade! Vocês tiveram um caso, não é? Vocês transavam!

-Pare com isso! Você está sendo patético!

Draco a encarou por alguns segundos. Então, disse:

-Há algo errado entre vocês dois, e eu vou descobrir o que é. E se eu ficar sabendo que você me traiu, Astoria...

-Deixe de ser idiota! ― Interrompeu ela, impaciente. ― Como eu iria traí-lo com alguém que nem estava no país?

-Não sei! Vocês mulheres, quando querem dar, são capazes de tudo.

Astoria, indignada com o insulto, respondeu:

-Seu estúpido, me respeite! Quem está pensando que eu sou para falar assim comigo? Uma daquelas vagabundas que estavam de olho em você na festa?

-Estou pensando que você é uma mulher que não respeita o seu marido!

Cansada de tantas ofensas, ela explodiu:

-Sabe de uma coisa? Você bem que merecia mesmo que eu tivesse feito algo errado. Talvez, com um belo par de chifres para lhe dar razão, você ficasse mais feliz e tivesse algum respeito por mim!

Draco, enfurecido com aquela resposta, ergueu a mão. Astoria se encolheu, esperando a bofetada. Entretanto, Draco baixou a mão devagar, fechando-a e abrindo-a, como se quisesse se acalmar.

-Some daqui. ― Disse ele. ― Sai da minha frente, antes que eu acabe fazendo uma besteira.

Respirou fundo e completou:

-Pensei que eu tinha me casado com uma dama, mas agora vejo que você não passa de uma puta.

Astoria engoliu em seco, olhando-o com ódio e respirando com força. "Desgraçado", murmurou ela com os punhos fechados, se controlando para não partir para cima dele.

Draco virou-se para as bebidas e pegou uma garrafa quase cheia de firewisky, colocou uma dose em um copo e tomou em um gole só.

-Draco! ― Astoria interferiu secamente. ― Você vai beber mais? Não acha que já bebeu o bastante por hoje?

Ele a fuzilou com um olhar assustador.

-Vai querer me controlar agora? Era só o que faltava!

-Não é questão de eu querer controlá-lo, mas assim você vai acabar passando mal. O seu fígado...

-Faz muito pior ao meu fígado ― cortou ele, irritado ― ver você se esfregando nos meus amigos!

Astoria percebeu que discutir com um bêbado seria um desgaste inútil. Ele a estava insultando deliberadamente e mesmo que ela soubesse que tinha cometido um erro, estava difícil ficar ali ouvindo aquelas coisas. Estava preocupada com Draco bebendo daquele jeito, mas ainda assim deixou-o e subiu para o quarto, sabendo que no dia seguinte teria de ajudá-lo a curar uma senhora ressaca. Porém, diante do vendaval que ele certamente faria com o caso do tango, a ressaca não haveria de ser nada.

Astoria arrumou-se para dormir. Deitou-se, mas não conseguia dormir, pensando em Draco e na garrafa que ele estava se dedicando a esvaziar.

"Eu errei", pensou ela. "Não deveria ter cedido aos encantos de Zabini. Por outro lado, como poderia evitar?", ela refletiu, com um sorriso despontando em seu rosto, ao lembrar que tinha sido desejada por outro homem além do seu. Logo depois condenou o próprio pensamento, repetindo para si mesma que aquele comportamento era indigno de uma dama casada. Mas em seu íntimo, mesmo sabendo que sentimentos nada puros a respeito de Blaise tinham perpassado sua mente, ela sentia-se injustiçada, afinal, apesar dos pesares, tinha sido apenas uma dança, nada mais.

O tempo se estendeu por longas horas. Astoria revirou pela cama por um longo período, até que finalmente adormeceu vencida pelo cansaço. Já era madrugada quando a porta do quarto se abriu com estrépito, e um cambaleante Draco entrou aos tropeços. Zonzo, esbasrrou no banquinho da penteadeira da esposa e caiu, soltando um palavrão.

-Ah, Draco! ― Suspirou Astoria, ao mesmo tempo irritada pela bebedeira do marido e preocupada com o estado em que ele se encontrava. Foi até ele, ajudando-o a se levantar. Quando ele se pôs de pé, Astoria tentou fazê-lo tirar a roupa para vestir-lhe o pijama, mas ele a afasatou violentamente. "Me deixa!", disse ele rudemente, e entrou trôpego no banheiro.

Chateada com os modos grosseiros do marido, a mulher foi buscar roupas de cama para dormir no tapete junto à cama: não se deitaria ao lado dele imundo como estava, cheirando a suor e bebida, e sabia que ele se recusaria a ir para o chão. Sentindo-se irritada e cansada, esticou os braços, tateando em busca de lençois e edredons, e logo estava improvisando uma cama.

Neste ínterim, Draco saiu do banheiro. Viu Astoria de costas para ele, suas pernas bem torneadas envolvidas pela camisola fina, suas curvas bem desenhadas contra a luz. Sem pensar duas vezes, foi até ela e agarrou-a. Ela deu um grito, assustada, e tentou desvencilhar dele.

-Pare Draco! Solte-me! ―protestou, tentando se soltar do aperto dele.

Ele a ignorou. Afundando o rosto no pescoço da esposa e apertando as costas dela contra o próprio peito, disse:

-Tire essa roupa que eu quero você agora.

Astoria conseguiu se livrar com muito esforço e se afastou dele.

-Nem pensar! Você está bêbado e imundo! Mal consegue ficar em pé! Vá dormir que é o melhor que você faz. Deixe-me dormir, estou cansada!

Draco segurou o queixo de Astoria, apertando com tanta força que parecia querer quebrá-lo:

-Está cansada, é? Cansada ou satisfeita? Deu muito para o Zabini quando eu não estava olhando, sua vagabunda?

-Não diga bobagens! ― Astoria respondeu, afastando a mão dele, ofendida. ― Eu exijo que você me respeite, cretino!

Draco não lhe deu a menor atenção. Agarrou-a outra vez e a atirou na cama. Rapidamente se colocou por cima dela, tentando despi-la, mas ela não se rendeu. Além de Draco estar realmente nojento, bêbado daquele jeito, ela não estava gostando do modo como ele estava tentando forçá-la a transar.

Ela poderia muito bem ceder a ele, afinal, era seu marido. Porém, seu orgulho a impedia de fazer isso, afinal, depois de ouvir tantos insultos, ainda se submeter a servir a ele era no mínimo uma indignidade a ela enquanto mulher e esposa.

Porém, ele a queria tanto quanto ela não o queria. Assim, os dois iniciaram uma verdadeira batalha, Draco sobre Astoria, segurando-a entre suas pernas e tentando tirar a roupa dela, e Astoria se debatendo, esperneando, empurrando-o para longe e tentando escapar.

-Pare Draco! Eu não quero! Pare com isso! ― Ela dizia, afastando a mão dele e tentando em vão tirar suas pernas dentre as dele.

-Fique quieta! ― Ele gritou, e puxou a camisola dela com força, rasgando-a. Assustada, a mulher protestou:

-Pare com isso! Você ficou louco?

Mas ele não lhe deu atenção. Levou a boca ao pescoço dela, acariciando-a lascivamente, enquanto tentava tirar a lingerie que ela usava. Astoria estava angustiada com aquela atitude, só queria sair dali e dormir em paz, mas Draco estava decidido. Então, desesperada, Astoria começou a puxar os cabelos de Draco e afastar o rosto dele de seu pescoço, enquanto pedia para ele parar.

De repente, num movimento brusco, Astoria acertou o rosto de Draco, dando-lhe sem querer um arranhão que deixou um vergão próximo a seu olho.

Uma fração de segundo depois, Draco revidou, dando-lhe um forte murro no lado esquerdo do rosto.

O choque e o terror espalharam-se pelo corpo de Astoria. Por mais ciumento que fosse, por mais zangado que estivesse, Draco jamais a agredira fisicamente. Ameaçara duas vezes, uma delas instantes antes, mas nunca chegara às vias de fato. E agora, lhe agredira de tal forma que ela se sentia zonza, sua visão estava turva, e por alguns instantes ela não sabia mais quem era e onde estava.

Logo depois, a consciência do que acabara de acontecer a dominou: seu marido a esmurrara bem no rosto. Ele estava fora de controle. Aproveitando-se do instante de inércia dela causado pelo soco, ele conseguira arrancar-lhe a lingerie e com movimentos rápidos e precisos se pôs entre suas pernas de maneira a conseguir o que queria. E ela, sem forças para reagir e enfraquecida pelo choque da agressão, murmurava inutilmente, com lágrimas escorrendo pelo rosto: "Por favor, não, Draco! Desse jeito não! Desse jeito não!".

Mas ele não a ouvia. Segurava os pulsos dela contra a cama firmemente, na altura da cabeça, enquanto dizia: "Quem é você para me dizer não quando eu te quero, vadia?" E a penetrou violentamente, sem licença, sem carinho, sem cuidado, sem a menor preocupação em saber se ela estava sofrendo ou sentindo dor.

Um choro desesperado escapou da boca de Astoria. "Pare, Draco, por favor, eu não quero! Por favor, pare! Pare! Não! Por favor, não!", ela suplicava com um fio de voz, completamente impotente diante da força do marido, multiplicada pela bebedeira. Mas era inútil. E ali ela permaneceu por vários instantes sem nada poder fazer, soluçando desesperada, arrasada pela dor não apenas física, mas principalmente pelo horror de ver aquele homem que ela aprendera a amar transformando―se em seu algoz.
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